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Caderno Mercado

Síndrome de Alagille: doença ultrarrara afeta fígado e coração

Síndrome de Alagille: doença ultrarrara afeta fígado e coração

Sintomas dispersos como problemas ósseos, alterações cardíacas, sinais nos olhos e complicações hepáticas frequentemente parecem desconectados à primeira vista. No entanto, esse cenário esconde as chamadas condições multissistêmicas, capazes de atingir simultaneamente diferentes partes do corpo humano desde os primeiros meses de vida.

H2: O que é a síndrome de Alagille e como ela afeta o organismo

Globalmente, a estimativa é de que a alteração genética ocorra em uma proporção que varia entre um em cada 30 mil e um em cada 50 mil nascidos vivos. O problema surge de mutações que prejudicam o desenvolvimento dos ductos biliares intra-hepáticos, responsáveis por escoar a bile produzida pelo fígado. Como consequência, ocorre o represamento da substância, quadro clínico denominado colestase.

De acordo com a hepatologista Cibele Dantas, os primeiros sinais costumam aparecer logo após o nascimento através de um quadro de colestase neonatal, marcado pelo amarelamento da pele e dos olhos (icterícia), urina escura (colúria) e fezes claras ou esbranquiçadas (acolia fecal). “Com a progressão da doença, surge o prurido, uma coceira intensa em todo o corpo que se torna o sintoma mais incomodativo e incapacitante, que leva a escoriações e infecções secundárias, além de comprometer o sono e a rotina diária. O sintoma é tão grave e debilitaante que pode levar à indicação de transplante hepático para controlar o prurido”, explica.

H2: Sintomas além do fígado e o impacto na rotina familiar

Além das complicações hepáticas, a enfermidade pode provocar anomalias vasculares, renais, na coluna, nos olhos e no sistema cardíaco. Entre os indícios mais frequentes estão o estreitamento das artérias pulmonares — gerando sopro no coração —, o embriotóxon posterior (característica ocular) e a chamada “vértebra em borboleta”, formato atípico das vértebras.

A rotina dos familiares também sofre reviravoltas profundas. A exigência de monitoramento médico multidisciplinar constante obriga muitos pais a reestruturarem o cotidiano por completo, sendo necessário, em certas situações, abandonar o emprego para se dedicarem inteiramente aos cuidados com os filhos.

H2: Desafios terapêuticos e novas perspectivas no Brasil

No cenário brasileiro, o manejo médico encontra barreiras significativas. Fármacos como colestiramina, rifampicina e ácido ursodeoxicólico são empregados na tentativa de abrandar a colestase, mas entregam eficácia restrita, falham em combater a raiz fisiopatológica da coceira, carecem de indicação oficial para o problema e ficam de fora do Sistema Único de Saúde (SUS) para esse fim.

Outro obstáculo é a ausência de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) voltado exclusivamente para a enfermidade no país. “A elaboração de diretrizes nacionais baseadas em evidências científicas é fundamental para padronizar o cuidado, otimizar recursos e garantir que os pacientes mais graves recebam acompanhamento adequado”, afirma a hepatologista.

Apesar das dificuldades, o Ministério da Saúde analisa atualmente a inclusão no SUS de uma medicação oral formulada especificamente para o problema: os inibidores do transportador ileal de ácidos biliares (IBAT). Já chancelada pela Anvisa, a medicação age diretamente na causa do acúmulo de ácidos biliares, mostrando grande eficácia na diminuição dessas taxas no sangue e no abrandamento da coceira. “A incorporação dessa tecnologia representa a oportunidade de oferecer uma opção segura e eficaz para os pacientes, reduzindo significativamente o prurido e sobretudo aumentando as chances de sobrevida do fígado nativo e reduzindo a necessidade de transplante. Para as famílias, significa uma nova perspectiva de qualidade de vida”, conclui Dra. Cibele.

Fonte: Economia - Valor