Como lucrar na renda fixa mesmo com falências de empresas
Você aceitaria investir em uma carteira de renda fixa sabendo que duas empresas podem quebrar e, mesmo assim, seu rendimento ainda poderia ser equivalente ao de títulos públicos? Embora pareça contraditório, essa é uma das principais razões pelas quais a diversificação é tão importante no crédito privado. O segredo não está em encontrar empresas que jamais terão problemas, mas em receber juros suficientes para compensar as perdas que eventualmente ocorrerão e diversificar.
O papel do spread de crédito e o controle de riscos
Quando você compra uma debênture, está emprestando dinheiro a uma empresa. Em geral, o investidor exige uma remuneração adicional à oferecida por títulos públicos comparáveis para compensar o risco de não receber tudo o que foi prometido. Essa diferença é conhecida como spread de crédito. No entanto, ela não deve ser analisada apenas em cada investimento isoladamente, mas também no conjunto da carteira.
Considere um investidor com R$ 1 milhão aplicado em uma carteira de crédito privado que oferece um spread médio de dois pontos percentuais ao ano sobre títulos públicos de prazo semelhante. Isso representa aproximadamente R$ 20 mil de remuneração adicional no primeiro ano, antes de impostos e custos. Agora, suponha que nenhuma empresa represente mais de 1% do patrimônio, ou R$ 10 mil.
Se duas empresas quebrarem e o investidor perder integralmente os R$ 10 mil aplicados em cada uma, o prejuízo será de R$ 20 mil. Nesse exemplo simplificado, supondo que a carteira receba os juros adicionais previstos e que as perdas ocorram ao final do período, o spread de um ano seria aproximadamente suficiente para compensar as perdas. O retorno ficaria próximo ao de uma aplicação em títulos públicos comparáveis, desconsiderando diferenças tributárias, despesas e efeitos da capitalização.
Os perigos da alta concentração de capital
Perceba como a conclusão mudaria se o investidor tivesse colocado 20% do patrimônio em uma única empresa. Uma perda de metade desse investimento consumiria R$ 100 mil, equivalentes a cinco anos daquele spread adicional de R$ 20 mil, em uma comparação simplificada. A taxa oferecida poderia ser excelente, mas o tamanho da posição transformaria um problema individual em uma perda relevante para todo o patrimônio.
Essa é uma diferença fundamental entre analisar um título isoladamente e avaliar uma carteira. Uma debênture pode apresentar risco elevado de perda, mas uma carteira de crédito privado bem construída consegue distribuir esse risco entre diversos emissores. O investidor não precisa apenas estimar a possibilidade de uma empresa quebrar, mas precisa avaliar quantas perdas sua carteira conseguiria absorver sem comprometer significativamente o patrimônio.
Ao financiar empresas, acrescenta-se o risco de que uma delas não consiga cumprir suas obrigações. O prêmio de crédito existe justamente para remunerar esse risco adicional, embora não haja garantia de que será suficiente.
A importância da qualidade operacional e das garantias
A diversificação, porém, não pode ser confundida com a simples quantidade de títulos. Comprar debêntures de cem empresas não torna uma carteira automaticamente segura se todas estiverem excessivamente endividadas ou dependerem do mesmo setor econômico. O importante é diversificar também os setores, os grupos econômicos e as fontes de risco.
A qualidade de cada operação continua sendo fundamental. Uma empresa com geração de caixa consistente, endividamento controlado e capacidade de refinanciar suas obrigações tende a oferecer riscos diferentes daqueles de uma companhia financeiramente fragilizada. As garantias também importam, assim como a prioridade de recebimento dos credores.
Se duas empresas deixarem de pagar, mas o investidor conseguir recuperar metade do valor aplicado em cada uma, a perda total será de R$ 10 mil, e não R$ 20 mil. Nesse caso, metade do spread adicional recebido naquele ano ainda permanência na carteira, mostrando que avaliar a capacidade de recuperação pode ser tão importante quanto estimar a probabilidade de inadimplência.
Vantagens da gestão profissional e dos fundos
O desafio é que esse trabalho exige conhecimento especializado. Analisar demonstrações financeiras, compreender contratos, acompanhar garantias e identificar mudanças na situação das empresas demanda tempo e experiência. Considere alguém com R$ 100 mil disponíveis para investir em crédito privado: se limitar a exposição a 1% por empresa, precisará distribuir os recursos em aplicações de apenas R$ 1.000 por emissor.
Na prática, os valores mínimos e a necessidade de acompanhar dezenas de empresas tornam essa estratégia inviável para o investidor individual. É aí que os fundos de crédito privado fazem sentido. Um gestor especializado consegue distribuir os recursos, acompanhar riscos continuamente e negociar condições diferenciadas.
Contudo, é necessário avaliar a experiência do gestor, a concentração, a qualidade dos ativos, a liquidez e as taxas. Como lembra Michael Viriato, que é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor, o objetivo no crédito privado é construir uma carteira em que a quebra de uma empresa não seja capaz de comprometer seu patrimônio.
A principal lição é que investir em crédito privado não significa tentar descobrir quais empresas nunca terão problemas, mas sim selecionar bons créditos, exigir uma remuneração adequada e impedir que o erro em uma única escolha comprometa o resultado de toda a carteira.
Fonte: Folha - Mercado