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Caderno Mercado

Eleições nos Estados Unidos mostram desejo por mudança econômica, mas cenário político aponta para frustração

Eleições nos Estados Unidos mostram desejo por mudança econômica, mas cenário político aponta para frustração

O eleitorado americano compareceu às urnas nas eleições de meio de mandato exigindo transformações profundas, com as pautas financeiras ocupando o centro do debate. Contudo, a expectativa de alívio na economia tem grandes chances de resultar em decepção generalizada.

A dinâmica institucional do país revela que a nova configuração partidária no Congresso terá pouca influência sobre decisões centralizadas em decretos da presidência. Enquanto os legisladores republicanos tendem a seguir as diretrizes do Executivo, a oposição democrata carece de propostas efetivas para sanar os problemas financeiros mais urgentes da nação.

O peso do custo de vida e os gargalos na saúde

No topo das aflições cotidianas da população está o encarecimento generalizado de produtos e serviços, impulsionado pelas tarifas comerciais impostas por Donald Trump e pelos conflitos geopolíticos no Oriente Médio. Embora o Legislativo possua a prerrogティブ histórica de legislar sobre taxas de importação — competência delegada ao Executivo há quase um século —, qualquer tentativa de frear essas medidas esbarraria no veto presidencial.

A mesma barreira se aplica a eventuais resoluções para conter hostilidades externas que poderiam baratear os combustíveis. No setor de saúde, a situação é igualmente crítica, agravada pelo encarecimento dos convênios médicos vinculados à Affordable Care Act. Com o término de subsídios federais para a classe média e a evasão de clientes com boa saúde, os valores cobrados tendem a subir ainda mais, sem perspectivas de retorno da multa obrigatória extinta no primeiro mandato presidencial.

Avanço tecnológico e política migratória

A expansão acelerada de data centers voltados para inteligência artificial gerou atritos comunitários devido ao alto consumo de recursos naturais. Embora o parlamento pudesse impor exigências rígidas de licenciamento e cobranças por infraestrutura, o governo federal prioriza a liderança global tecnológica em detrimento das demandas locais, mantendo forte alinhamento com a indústria de semicondutores.

No campo da imigração, foco de forte tensão entre minorias latinas e asiáticas, as diretrizes continuam sob o controle de agências subordinadas ao Executivo. Diante da rejeição pública a métodos mais violentos, órgãos como o ICE simplesmente adaptaram suas estratégias operacionais para manter as ações de forma mais discreta.

O impasse fiscal e a carga tributária

O maior desafio ignorado pela classe política permanece sendo a situação fiscal, com a dívida pública ultrapassando 100% do Produto Interno Bruto e déficits anuais acima de 6%. As famílias já sofrem os reflexos dessa instabilidade por meio de taxas de juros elevadas no crédito imobiliário, um cenário que tende a piorar caso o problema continue sem solução.

As propostas tradicionais para equilibrar as contas públicas por meio de cortes de gastos mostraram-se ineficientes, enquanto o campo democrático evita apresentar medidas drásticas para elevar a arrecadação. Mesmo iniciativas como a taxação de grandes fortunas enfrentam resistências e dúvidas sobre sua real capacidade de sanar o déficit crônico.

Diante de uma das menores cargas tributárias entre os países desenvolvidos, apenas uma reforma tributária profunda — capaz de eliminar lacunas legais e aumentar alíquotas de forma justa — poderia reverter o quadro. No entanto, tal mudança exigiria não apenas um comando presidencial alinhado, mas também parlamentares dispostos a superar tabus políticos históricos.

Fonte: Folha - Mercado