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Caderno Mercado

Gigantes de tecnologia perdem quase US$ 900 bilhões após apostas em inteligência artificial

Gigantes de tecnologia perdem quase US$ 900 bilhões após apostas em inteligência artificial

As empresas de big tech perderam quase US$ 900 bilhões (R$ 4,88 trilhões) em valor de mercado após mais uma forte alta em seus gastos no terceiro trimestre, o que transformou alguns dos negócios mais lucrativos da história em verdadeiros incineradores de caixa enquanto apostam seu futuro na inteligência artificial.

Impacto nos mercados financeiros O valor pode aumentar mais nesta sexta-feira, já que parte das empresas enfrentam outro dia de forte desvalorização na Bolsa. As ações da Intel chamaram a atenção ao despencar 29,65% na abertura da Nasdaq, os papéis da Amazon chegaram a cair 5,92%, a Nvidia teve uma queda de 3,72% e o Google desvalorizou 1%, após ter despencado mais de 13% no dia anterior.

As ações das quatro grandes “hiperescaladoras” —Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet, dona do Google— caíram após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, nos quais os investimentos de capital quase dobraram e soaram sinais de alerta sobre a desaceleração do crescimento da receita nos principais negócios.

Em conjunto, seus investimentos de capital, destinados principalmente a chips e data centers, subiram de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões (R$ 1,12 trilhão) em um ano. Apesar da reação negativa, os executivos do setor de tecnologia mantiveram os planos de gastar outros US$ 232 bilhões no quarto trimestre, o que poderia elevar os investimentos de capital a US$ 740 bilhões (R$ 4,01 trilhões) neste ano.

Mudança no perfil financeiro Até este ano, as gigantes da tecnologia geralmente conseguiam financiar seus investimentos com fluxos de caixa extraordinários. Recentemente, porém, a maioria começou a queimar caixa, muitas vezes pela primeira vez em sua história como empresa de capital aberto, e anunciou uma série de enormes emissões de dívida e ações.

A mudança drástica em seu perfil financeiro agravou as preocupações sobre a sustentabilidade do boom da IA que impulsionou o crescimento de Wall Street nos últimos anos.

Brent Thill, analista da Jefferies, afirmou que os investidores se assustaram com resultados bons, mas não excepcionais. Ele acrescentou que os mercados estavam cada vez mais preocupados com a possibilidade de que os limites à construção de infraestrutura física impedissem as hiperescaladoras de atender a toda a demanda.

“A piscina da tecnologia está fechada. Estamos vendo uma liquidação generalizada, com todos correndo neste momento”, afirmou. “Não sabemos se a placa de fechado ficará exposta por 10 minutos, 20 minutos ou mais”, completou.

O peso dos gastos da Amazon e do Google Os gastos históricos com infraestrutura de IA em todo o setor de tecnologia —que, segundo cálculos de analistas, caminham para superar, como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA, os valores investidos em ferrovias ou em telecomunicações e fibra óptica— tiveram um impacto drástico nos balanços patrimoniais de algumas das maiores empresas do mundo.

Google, Meta e Amazon, que geraram juntas US$ 36,4 bilhões em fluxo de caixa livre no terceiro trimestre de 2025, queimaram US$ 45,2 bilhões em caixa no mesmo período deste ano. A Amazon foi a que mais gastou, registrando fluxo de caixa livre negativo de US$ 33,5 bilhões no período, após elevar os investimentos de capital ao recorde de US$ 75,8 bilhões e acelerar a construção de mais data centers e a compra de chips.

Brad Reback, analista da Stifel, afirmou que os investidores estavam se tornando mais exigentes com as big techs e queriam provas de que os gastos com infraestrutura de IA estavam se convertendo em novas receitas.

“Grande parte das boas notícias agora já está claramente incorporada aos preços”, comentou Reback. “O mercado está nos dizendo que o custo de capital importa e que, na margem, está ficando mais difícil financiar esses locais.”

Apenas a Alphabet perdeu US$ 500 bilhões (R$ 2,71 trilhões) nessa quinta em valor de mercado. Os investidores reagiram à queda do fluxo de caixa livre do Google, de US$ 24,5 bilhões positivos um ano antes para US$ 9,1 bilhões negativos —apenas o segundo trimestre de queima de caixa desde que a empresa abriu seu capital, em 2004—, enquanto os investimentos de capital superaram US$ 50 bilhões.

O analista Mark Shmulik, da Bernstein, classificou a liquidação como uma “reação impulsiva” ao desempenho abaixo das estimativas e afirmou que as empresas de tecnologia continuavam crescendo, mas reconheceu que os investidores estão cada vez mais receosos diante de outro “aumento considerável” dos gastos no próximo ano.

“Até onde os investimentos de capital podem chegar em 2027 e, cada vez mais, em 2028? E o que isso implica para as fontes de financiamento e as prioridades de alocação de capital?”, questionou.

Desempenho da Microsoft e expansão da SpaceX A Microsoft foi uma exceção notável no período e recebeu elogios por sua disciplina de capital. Mesmo com o aumento dos gastos para US$ 45,2 bilhões (R$ 245,12 bilhões), ainda gerou US$ 18,6 bilhões (R$ 100,87 bilhões) em caixa no trimestre, e suas ações registraram apenas uma leve queda no dia seguinte à divulgação dos resultados.

No entanto, refletindo as pressões de custos que enfrenta, o grupo de software ofereceu na segunda-feira pacotes de desligamento voluntário a cerca de 60 mil funcionários.

A SpaceX também se consolidou como uma das principais participantes da corrida pela infraestrutura de IA. Desde que a fabricante de foguetes abriu seu capital em junho, divulgou planos de gastar US$ 88,1 bilhões (R$ 477,78 bilhões) neste ano, enquanto Elon Musk corre para adicionar mais racks de GPUs aos seus dois data centers “Colossus” em Memphis (EUA).

Adam Jonas, analista do Morgan Stanley, estima agora que a SpaceX gastará US$ 278 bilhões (R$ 1,51 trilhão) em investimentos de capital no próximo ano, com os gastos em IA representando 87% desse total.

Riscos para empresas menores A reação turbulenta do mercado aos resultados das big techs é um mau presságio para empresas menores. As chamadas neoclouds altamente endividadas, como a CoreWeave, contraíram grandes empréstimos para financiar data centers e equipamentos da Nvidia e vêm sendo afetadas por atrasos em projetos e cancelamentos de contratos.

As ações da CoreWeave caíram 47% nos últimos seis meses, e parte de sua dívida passou a ser negociada em patamares associados a ativos problemáticos antes da divulgação de seus resultados no próximo mês.

Musk afirmou no domingo (25) que essa depuração do mercado fez com que os mercados de dívida praticamente se fechassem para as neoclouds e previu “morte e consolidação no nível dos peixinhos” para a maioria das novas provedoras de computação em nuvem.

Fonte: Folha - Mercado