Inteligência artificial conquista aprovação massiva fora do ocidente
Enquanto a imprensa ocidental frequentemente destaca uma resistência crescente contra a inteligência artificial, a realidade global aponta para um cenário bem diferente. Pesquisas recentes revelam que o entusiasmo com a tecnologia supera o ceticismo em diversas regiões do planeta, especialmente fora dos países desenvolvidos.
A perspectiva otimista na ásia e na áfrica
Na Coreia do Sul, quase dois terços da população compartilham de uma visão favorável sobre a ferramenta. Bae Oh-do, um vendedor de violinos de 70 anos em Seul, relembra as dificuldades do trabalho manual na juventude e apoia o avanço tecnológico. “Não é algo com que os seres humanos devam se preocupar. Esse tipo de coisa é bom”, afirma. “Eles devem continuar desenvolvendo a tecnologia. A humanidade avançou muito até a nossa geração. Não há como saber de que maneira o mundo vai mudar.”
Fora das nações ricas, o apoio é ainda mais expressivo. Quase nove em cada dez cidadãos na Nigéria e no Vietnã acreditam que a tecnologia vai aprimorar a condição da humanidade. Dados de levantamentos realizados pela GlobeScan em 34 países mostram que, embora o ambiente digital possa ter influenciado algumas respostas, o contraste com os Estados Unidos, o Canadá e a França é evidente, onde o sentimento negativo prevalece.
Motivos para a divergência global
Diversos fatores explicam essa disparidade de percepção. Nos países em desenvolvimento, o mercado de trabalho costuma ser informal e a população tem menos a perder em termos de empregos corporativos estáveis. Além disso, a tecnologia surge como suporte em locais com deficiências educacionais e institucionais. Como aponta Payal Arora, autora de “From Pessimism to Promise”, livro sobre as divergências nas atitudes em relação à tecnologia: “O pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao lucro de perder a esperança”.
Outro ponto fundamental é o acesso facilitado a aplicativos gratuitos ou de baixo custo na Índia e em nações africanas. A geopolítica do conhecimento também desempenha um papel importante nessa dinâmica. Os ocidentais “historicamente monopolizaram o conhecimento e a produção de ideias, mas a IA põe isso em xeque”, afirma Yuen Yuen Ang, da Universidade Johns Hopkins. “Será uma crise apenas para quem perde com essa transformação?”
Fatores demográficos e históricos
A escassez iminente de mão de obra em locais com baixas taxas de fecundidade, como o leste asiático, faz com que governos e populações esperem que a tecnologia substitua trabalhadores ausentes para cuidar de sociedades envelhecidas. A memória coletiva de saltos econômicos rápidos impulsionados por inovação também favorece a aceitação em Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, China e Índia.
Em contrapartida, o ceticismo ocidental reflete frustrações econômicas e a desconfiança em relação às grandes empresas de tecnologia e aos políticos. Daniel Dobrygowski, autor do livro “Technology Governance”, explica que essa postura decorre de experiências negativas prévias com as redes sociais. Enquanto líderes ocidentais alertam frequentemente sobre riscos apocalípticos e extinção humana, nações asiáticas concentram o discurso nos benefícios práticos e cotidianos das ferramentas digitais.
Fonte: Folha - Mercado