Volkswagen fracassa na China e sofre com vendas baixas da parceria com a Xpeng
Quando recorreu à fabricante de veículos elétricos Xpeng, em 2023, para tentar recuperar seus negócios em dificuldades na China, executivos da Volkswagen apresentaram a parceria como um atalho para desenvolver carros adaptados ao mercado chinês na velocidade acelerada do setor automotivo local.
Crise no mercado chinês Três anos depois, o primeiro produto da aliança exemplifica o declínio da Volkswagen no maior mercado de automóveis do mundo. O SUV elétrico ID. UNYX 08 vendeu, em média, 267 unidades por mês entre seu lançamento, em abril, e agosto, segundo dados da consultoria automotiva ThinkerCar. O número é uma fração das 3.622 vendas mensais que a Volkswagen pretendia alcançar inicialmente neste ano, de acordo com documentos de planejamento da empresa.
O fraco desempenho inicial reflete a batalha da Volkswagen para recuperar sua posição na China, onde liderou o setor automotivo por décadas, até 2022. O país representa o principal desafio da crise global da montadora: um mercado que antes respondia por quase 50% dos lucros do grupo agora representa cerca de 10%. Essa inversão expressiva obrigou a companhia a realizar a maior reestruturação de seus 89 anos de história.
Estratégia de distribuição e preços O UNYX 08 também evidencia um problema persistente na estratégia da Volkswagen para a China. A empresa alemã reconheceu a mudança do mercado em direção a tecnologias mais avançadas e buscou parceiros locais para recuperar o atraso. Ainda assim, teve dificuldades para transformar essas apostas em sucesso comercial.
A Volkswagen vendeu o UNYX 08 por meio de uma rede de distribuição ainda incipiente e limitada. O veículo também enfrentou dificuldades para competir com SUVs elétricos chineses mais recentes, equipados com recursos avançados de software.
O modelo chegou ao mercado com preço de cerca de US$ 34,26 mil. Concorrentes chineses de preço semelhante, porém, ofereciam recursos mais sofisticados. O YU7, da Xiaomi, contava com um conjunto avançado de sensores; o 7X, da Zeekr, oferecia carregamento rápido. Entre abril e agosto, a Xiaomi vendeu quase 57 mil unidades do YU7, e a Zeekr comercializou mais de 21 mil unidades do 7X, ante cerca de 1.300 do UNYX 08, segundo a ThinkerCar.
“Os consumidores chineses perguntam: por que comprar um carro alemão caro se podem obter a tecnologia por um preço muito menor?”, afirmou Pedro Pacheco, vice-presidente de pesquisa da Gartner.
Stephen Reitman, analista do setor automotivo da Bernstein, lembrou que a Volkswagen mostrou a analistas, em abril de 2024, imagens geradas por computador dos modelos desenvolvidos com a Xpeng. “No dia seguinte, fomos ao Salão do Automóvel de Pequim e era possível ver que esse tipo de design já estava no mercado”, comentou.
Histórico de parcerias problemáticas Para a Volkswagen, a parceria com a Xpeng é mais um capítulo de uma série de empreendimentos problemáticos, oportunidades perdidas e iniciativas abandonadas na China, que envolveram baterias, direção autônoma, infraestrutura de recarga, software e até carros voadores.
A Volkswagen foi “lenta demais para desenvolver as competências de que precisa hoje”, declarou Stefan Bratzel, fundador e diretor do Center of Automotive Management, instituto alemão de pesquisa.
O dilema afeta quase todas as montadoras estrangeiras na China. Depois de ficarem para trás em software, baterias e plataformas veiculares, marcas de outros países passaram a recorrer a parceiros chineses para continuar competitivas. O acesso à tecnologia local, porém, não garante que consigam igualar a velocidade, a execução ou o apelo dos concorrentes chineses junto aos consumidores.
Conclusão e desafios futuros Marcas chinesas lideradas por BYD e Geely conquistaram participação de mercado ao lançar veículos com mais recursos de software em menos tempo e, muitas vezes, por preços menores. Isso obrigou concorrentes antes dominantes, como Volkswagen e Toyota, a lutar para continuar relevantes.
O risco, acrescentou, “é que o mercado avance mais rápido do que a empresa consegue se reinventar”.
Fonte: Folha - Mercado