EUA ameaçam Europa com retaliação caso bloqueiem concorrentes de tecnologia
O embaixador dos EUA junto à União Europeia, Andrew Puzder, ameaçou neste domingo (18) uma retaliação “devastadora” do país às empresas europeias caso o bloco prossiga com os planos de restringir a atuação de concorrentes norte-americanos, como a SpaceX, de Elon Musk, em partes do mercado no continente.
Conflito por frequências e satélites
O alerta de Andrew Puzder ocorre após a Comissão Europeia propor, neste ano, reservar a empresas europeias parte da faixa de espectro que permite a conexão direta de smartphones a satélites. Isso limitaria as frequências disponíveis para empresas chinesas e americanas como a SpaceX, operadora da rede de satélites Starlink.
Questionado se as empresas europeias deveriam temer retaliações, Puzder disse ao FT que elas “deveriam estar cientes de que isso pode acontecer e seria muito devastador para essas empresas”, dado o tamanho do mercado norte-americano.
As mudanças propostas para a alocação do espectro do bloco já provocaram duras críticas da SpaceX, que alertou que a medida pode piorar a conectividade na Ucrânia, onde seu serviço Starlink tem sido crucial para as comunicações civis e militares desde a invasão em grande escala pela Rússia em 2022.
Busca por soberania tecnológica
As mudanças propostas fazem parte de um pacote mais amplo para fortalecer a soberania tecnológica da Europa. Formuladores de políticas europeus buscam reduzir sua dependência da tecnologia americana em meio a preocupações com a imprevisibilidade do presidente dos EUA, Donald Trump, e com o risco de depender de empresas estrangeiras para infraestruturas críticas.
A Comissão Europeia apresentou uma Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA que imporia requisitos de soberania a provedores de serviços de nuvem sensíveis, ao mesmo tempo que buscaria ajudar empresas europeias de tecnologia a se fortalecer e virar uma alternativa às companhias norte-americanas do setor.
Puzder disse reconhecer o direito da Europa de proteger informações governamentais sensíveis, mas alertou contra o uso da legislação para favorecer empresas nacionais em detrimento de concorrentes americanas.
“Se o objetivo é tornar os EUA menos competitivos, não considero que essa seja uma finalidade legítima para esse tipo de legislação”, declarou Puzder. “Não se tornam as empresas europeias mais competitivas tornando as empresas americanas menos competitivas”, complementou.
“Temos produtos de primeira linha nessa área. São produtos confiáveis, produtos que inspiram confiança. Não precisamos de algum tipo de mediocridade sincronizada”, afirmou.
Críticas à regulação europeia
O embaixador também questionou se a aplicação da Lei dos Mercados Digitais da UE, que busca conter o poder das maiores empresas de tecnologia do mundo, realmente tinha como objetivo melhorar a concorrência ou, na verdade, gerar receita para o orçamento europeu, tendo em vista as multas bilionárias em euros impostas a big techs dos EUA.
“Começamos a nos perguntar: estamos tentando lidar com a concorrência no mercado digital ou gerar receita com empresas americanas para beneficiar a Europa?”, questionou.
Puzder argumentou que as ambições da Europa de fortalecer sua própria indústria de tecnologia correm o risco de ser prejudicadas por sua abordagem regulatória e pelo desestímulo ao investimento das empresas americanas, uma vez que as companhias de tecnologia dos EUA estão cada vez mais frustradas com as restrições regulatórias e as multas da UE.
Em vez de tentar conter o domínio das empresas norte-americanas, Bruxelas e Washington deveriam unir forças para competir com a China na corrida pelo desenvolvimento da IA, afirmou Puzder, repetindo comentários de Trump de que “a pior coisa que poderia acontecer seria perdermos essa corrida para a China”.
Segundo ele, os Estados Unidos têm os elementos necessários para vencer essa corrida, “mas seria muito mais fácil se estivéssemos trabalhando com a Europa, em vez de enfrentá-la”.
A Comissão afirmou que a proposta “incentiva a entrada no mercado e a diversificação dos fornecedores da UE, ao mesmo tempo que permanece aberta a operadoras de fora do bloco”.
Fonte: Folha - Mercado