Eleições 2026: promessas de Lula e Flávio ameaçam contas públicas
A reta final da intensa disputa presidencial deste ano deixará um pesado fardo financeiro para o próximo governante assumir em 2027. Os últimos dias antes da votação foram tomados por uma corrida desenfreada entre os candidatos na tentativa de atrair o eleitorado por meio de um festival de anúncios e promessas econômicas.
O custo do populismo nas contas públicas
Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva apostou em um pacote de benesses de R$ 290 bilhões para tentar garantir a vitória, seu oponente, Flávio Bolsonaro, elevou a aposta ao evitar medidas de contenção de gastos e prometer uma série de vantagens na tentativa de superar o rival na reta derrubada do segundo turno.
As estimativas para o impacto das medidas de Lula no Orçamento de 2027 variam de R$ 53,6 bilhões, conforme projeção do Ministério do Planejamento, até R$ 82 bilhões calculados pelo mercado financeiro. Por outro lado, as promessas do candidato do PL ainda carecem de detalhamento, o que dificulta uma mensuração exata.
Para blindar a campanha de ruídos, a equipe econômica do candidato do PL foi orientada a manter silêncio. Diante da falta de clareza sobre os planos de Flávio, analistas do mercado passaram a monitorar o que ele afirma que não fará para tentar calcular o tamanho do ajuste fiscal que o futuro governo conseguirá implementar.
Propostas e impactos econômicos
Entre os compromissos assumidos por Flávio nos últimos dias estão a criação de um congelamento de dívidas bancárias por até seis meses para cidadãos e até um ano para pequenos negócios, o retorno do Perse (programa de isenção fiscal para eventos), um sistema de Pix para devolução parcial de gastos aos consumidores, pedágio zerado para motos, além de melhorias na tabela do SUS e renegociação de débitos das Santas Casas.
Após repercussão negativa gerada por declarações de sua assessora econômica sobre uma transição de dois anos no Bolsa Família, Flávio garantiu que o benefício será mantido e aprimorado. O candidato também prometeu preservar programas sociais, assegurar ganho real para o salário mínimo, manter os pisos da saúde e da educação, e aperfeiçoar o programa Pé-de-Meia.
“Não tem nada de acabar com o Pé-de-Meia. Pelo contrário, está garantido. A gente, inclusive, vai propor uma melhora no Pé-de-Meia”, disse Flávio, no debate da TV Globo.
Na área tributária, ele acenou com cortes de impostos, revisão da reforma fiscal e a extinção do mecanismo de recolhimento automático conhecido como split payment. A suspensão dessa tecnologia pode ampliar a sonegação e reduzir a arrecadação, agravando o déficit nas contas do governo.
Visão de especialistas sobre o cenário fiscal
Especialistas apontam que a desmobilização das subvenções aos combustíveis adotadas por Lula também gerará pressão sobre o Orçamento, assim como eventuais compensações aos empresários devido ao fim da escala 6×1 de trabalho.
Para Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV, o reequilíbrio das contas será extremamente complexo em um ambiente de taxas de juros elevadas no Brasil e no exterior.
“O populismo fiscal é ecumênico nas eleições. Dar dinheiro para todo mundo é mais popular. É para empresário, para a população. Quem quer dinheiro, né?”, diz Matos.
A economista criticou duramente a intenção de ressuscitar o Perse, extinto em 2025, classificando a medida como um sinal de submissão do Estado aos interesses empresariais. A recriação do programa pode gerar um rombo de até R$ 25 bilhões anuais. Em resposta, Lula acenou com a criação de um projeto para perdoar dívidas de bares e restaurantes, sem detalhar o impacto financeiro.
“O Flávio falou de Perse, perdão de dívidas, mas tudo sem explicar. Que são bombas, são. Mas a questão das dívidas [congelamento], que é a grande bomba, seria preciso ter o detalhe”, diz Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.
Segundo Salto, a dinâmica da campanha estimulou medidas populistas de ambos os lados. “Será preciso, após o segundo turno, colocar a bola no chão e voltar às planilhas. Primeiro desafio é acertar o Orçamento de 2027”, conclui.
Fonte: Folha - Mercado