Datafolha mostra queda em avaliação positiva sobre efeitos do fim da escala 6×1
Pesquisa Datafolha mostra redução no percentual de brasileiros que avaliam que o fim da escala 6×1 será ótimo ou bom para suas vidas e para as empresas.
O levantamento mostra resistência à medida principalmente entre aqueles que se dizem eleitores de Flávio Bolsonaro (PL).
O percentual de brasileiros que avaliam que a adoção da escala 5×2, com dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução de salário, será ótimo ou bom para suas vidas passou de 68% para 59% entre os levantamentos realizados de 3 a 5 de março e nos dias 20, 21 e 22 de outubro.
Antes, eram 14% os que consideravam que os efeitos da mudança serão negativos para eles mesmos —o mesmo percentual dos que avaliavam a medida como regular. Agora, os números subiram para 19% e 18%, respectivamente.
O instituto entrevistou 2.520 pessoas de 16 anos ou mais em 154 municípios pelo Brasil. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%.
A PEC (proposta de emenda à Constituição) que acaba com a escala de trabalho 6×1 foi promulgada no dia 16 deste mês. O texto também prevê redução da jornada semanal máxima de 44 horas para 40 horas.
Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, diz que a redução na avaliação positiva se deve mais a um alinhamento político-eleitoral dos apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) do que a uma mudança de convicção.
“O Flávio votou a favor do fim da escala 6×1, mas passou a maior parte do tempo sendo crítico a essa essa pauta”, afirma.
“A percepção geral é que as empresas lucram acima do que precisariam com a escala 6×1 e, acabando com ela, as empresas vão absorver esse custo e isso não vai ter consequências negativas para os trabalhadores.”
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, diz que a população começou a entender melhor os efeitos da redução de horas trabalhadas após a promulgação da PEC.
Trabalhadores de setores mais afetados pelo fim da escala 6×1 podem ter passado a enxergar que a mudança trará impacto para suas vidas, afirma.
“É uma escolha social bem-vinda e que está em linha com outros países, como Colômbia, Chile, México, que já promoveram redução nas horas trabalhadas nos últimos anos, à medida que as tecnologias avançam. Mas, ao mesmo tempo, existe a percepção de que toda escolha gera custos, que começam a ser avaliados de maneira mais próxima na vida das pessoas”, afirma.
Segundo o Datafolha, o efeito para as empresas divide o eleitorado. Os que avaliam que a mudança da escala de trabalho será ótima ou boa para elas são 32%.
Essa questão esteve presente em duas pesquisas anteriores. Em dezembro de 2024, eram 35% que viam mudança positiva para as empresas. Em março de 2026, eram 39%.
O percentual dos que veem consequências ruins ou péssimas passou de 42% em 2024 para 39% em março deste ano e 41% agora em outubro. Os que avaliam como regular são 23%. Eram 19% nas duas pesquisas anteriores que abordaram o tema.
O Datafolha também fez perguntas sobre a avaliação dos benefícios da mudança para os trabalhadores e para a economia de forma geral.
Para 75% dos brasileiros, o fim da 6×1 será ótimo ou bom para a qualidade de vida dos trabalhadores, enquanto 12% o avaliam como regular e 11% como ruim ou péssimo. Em março, os números eram de 76%, 10% e 12%, respectivamente —todas oscilações dentro da margem de erro.
Essa pergunta também foi feita na pesquisa de dezembro de 2024, quando 72% faziam avaliação positiva, 11% regular e 14% negativa.
Para a economia de forma geral, eram 49% que avaliavam a mudança como ótima ou boa em dezembro de 2024, número que passou a 50% em março e 47% agora em outubro.
O percentual de ruim ou péssimo foi de 24% nas duas primeiras pesquisas para 26% nessa terceira. O regular foi de 22% na primeira e 23% nas seguintes.
DIFERENÇA ENTRE ELEITORES DE LULA E FLÁVIO
Segundo a última pesquisa Datafolha sobre o tema, a avaliação de que o fim da escala 6×1 será ótimo ou bom para si mesmos é de 79% entre pessoas que naquela data se diziam eleitores de Lula (PT), ante 39% entre os de Flávio Bolsonaro (PL).
No eleitorado do candidato do PL, 63% avaliam a medida como positiva para a vida dos trabalhadores em geral, e entre quem declara voto no atual presidente esse índice é de 89%.
Para a economia, a avaliação de ótimo ou bom é de 70% entre eleitores de Lula, ante 27% entre os de Flávio Bolsonaro.
O fim da escala 6×1 se tornou uma bandeira eleitoral para tentar melhorar a popularidade do presidente entre os trabalhadores.
O texto estabelece a adoção da escala 5×2, com dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução de salário, a partir de 16 de dezembro, 60 dias após a promulgação da Emenda Constitucional.
Nesse primeiro momento, haverá redução da carga horária de trabalho de 44 horas para 42 horas semanais. Após 12 meses, haverá a diminuição para o máximo de 40 horas semanais.
Algumas entidades empresariais afirmam que a concessão obrigatória de um segundo dia de folga semanal tornará mais cara a hora de trabalho, aumentando os custos do empregador. Para o governo Lula, essa avaliação ignora as mudanças pelas quais o mundo passou nos últimos anos.
A redução da jornada foi aprovada por ampla maioria de votos, com apoio de governo, centrão e oposição.
Flávio Bolsonaro votou a favor da PEC, em uma mudança de discurso em relação à proposta do governo. Ele não participou presencialmente da sessão. Registrou presença e votou pela internet.
Fonte: Folha - Mercado