Crise fiscal na França e em outros países ilustra o peso da dívida pública
As turbulências políticas recentes na França evidenciam a rapidez com que a instabilidade institucional se reflete no encarecimento da dívida pública. A taxa dos títulos do governo francês com vencimento em dez anos ultrapassou 5% pela primeira vez desde 2002, enquanto o prêmio de risco em relação aos papéis alemães superou 1,6 ponto percentual, marcando o patamar mais elevado desde a crise do euro em 2011.
Diferentes caminhos e custos dos ajustes fiscais globais
A análise da experiência internacional demonstra que as correções nas contas públicas variam em volume, composição e contexto. Existem ações impostas pela interrupção de captações, planos sob supervisão internacional, reações a crises de credibilidade e medidas preventivas. No caso francês, a dívida pública tem projeção de atingir 121,7% do Produto Interno Bruto até 2027, acompanhada de um déficit estimado em 5%.
A Grécia ilustra o cenário de colapso financeiro absoluto. Após perder o acesso aos mercados internacionais em 2010, o país passou por três programas de resgate, com forte impacto social e recessão severa. Já Portugal recorreu a mecanismos europeus e ao FMI entre 2010 e 2014, conseguindo recuperar sua autonomia e a confiança dos investidores de forma mais ágil, impulsionado por elevação de receitas.
Experiências recentes na Argentina, Reino Unido e África do Sul
Na Argentina, a gestão implementou um corte expressivo nas despesas em 2024, revertendo o saldo primário para o campo positivo. A rápida desinflação evidenciou a eficácia da medida, ao passo que a retração econômica e a corrosão dos rendimentos demonstraram o custo social envolvido. Em contrapartida, o Reino Unido enfrentou um abalo instantâneo de credibilidade em setembro de 2022, quando o plano de cortes de tributos sem respaldo fiscal derrubou a libra e exigiu intervenção emergencial no mercado financeiro.
Como um paralelo mais próximo para o Brasil, a África do Sul adotou o caminho de buscar superávits primários de maneira gradual após ter sua nota rebaixada. O programa sul-africano desacelera despesas correntes enquanto prioriza investimentos estratégicos, demonstrando que a correção planejada evita o fechamento abrupto das portas do mercado.
O cenário para o Brasil e a urgência de planejamento
O Brasil não lida com um colapso no financiamento externo, porém disputa recursos em um cenário global de capital mais oneroso, mantendo patamares elevados de juros reais. Com uma parcela expressiva do endividamento atrelada à taxa básica, o impacto do cenário monetário é absorvido rapidamente pelas contas públicas.
Especialistas apontam que a realização de um ajuste fiscal preventivo permite que o país mantenha o comando sobre o ritmo das medidas, evitando que as condições financeiras internacionais determinem a urgência e a rigidez das correções necessárias.
Fonte: Folha - Mercado