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Caderno Mercado

Reino Unido sinaliza perdão histórico pelo tráfico de escravizados

Reino Unido sinaliza perdão histórico pelo tráfico de escravizados

O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, declarou na sexta-feira (30) que avalia emitir um pedido oficial de desculpas pela participação histórica do país no tráfico de pessoas escravizadas. A manifestação sinaliza uma reviravolta significativa na postura política britânica e pode influenciar os próximos passos da Coroa.

Rejeição a reparações financeiras

Apesar de admitir a possibilidade de um mea-culpa estatal, Burnham afastou categoricamente a hipótese de conceder indenizações econômicas aos descendentes das vítimas. No entendimento do premiê, os cidadãos britânicos atuais não devem ser “responsabilizados por erros históricos, por mais hediondos que tenham sido, ocorridos em outra época, sob outras leis e dos quais não participaram pessoalmente”.

O chefe de governo criticou duramente a postura de gestões anteriores que optaram por ignorar o tema e se recusaram a manter um diálogo franco sobre as consequências da escravidão. Para contornar parte do impacto socioeconômico nas regiões afetadas, ele solicitou ao ex-primeiro-ministro Gordon Brown a liderança em uma iniciativa global voltada à reestruturação da dívida externa das nações ex-colônias em situação de maior vulnerabilidade econômica.

Pressão internacional e demandas do Caribe

A discussão ganha força em meio a cobranças públicas feitas por lideranças caribenhas. Hilary Beckles, dirigente da Comissão de Reparações da Caricom, cobrou ações diretas da monarquia britânica durante pronunciamento recente, argumentando que a realeza acumulou fortuna através da exploração colonial.

“Ele pode ver o enriquecimento que a escravidão trouxe à sua família”, afirmou Beckles. “Ele pode ver que a riqueza que está passando para seus filhos e netos veio, em quantias significativas, desse processo de transformação do povo africano em propriedade.”

Posicionamento da monarquia e viagem real

Enquanto a realeza tradicionalmente transfere a responsabilidade por medidas reparatórias ou pedidos de desculpas para a esfera governamental, o rei Charles 3º tem agenda oficial marcada no Caribe. O monarca participa na terça-feira (3) de um encontro com líderes da Commonwealth em Antígua e Barbuda, evento que também contará com a presença do primeiro-ministro britânico.

Embora Charles já tenha descrito o episódio como algo que “mancha para sempre nossa história” e reconhecido o sofrimento de populações locais, ele nunca emitiu um perdão formal pelas ações do império. O Palácio de Buckingham evitou comentar o artigo publicado por Burnham, mantendo o impasse sobre como a diplomacia britânica lidará com as cobranças por reparação moral e econômica.

“Precisamos encarar o passado”, concluiu Burnham.

Fonte: Folha - Mercado