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Caderno Mercado

Investidores suspendem novos projetos após vitória de Lula em 2026

Investidores suspendem novos projetos após vitória de Lula em 2026

A reação inicial do mercado financeiro à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para o seu quarto mandato presidencial incluiu uma queda de 18% na Bolsa brasileira e uma alta de 9% no dólar. Nos bastidores, a incerteza se traduziu na decisão imediata de gestores e corporações de paralisar novos aportes e expansões até que o cenário econômico se torne mais previsível.

Moderação e foco na operação diária

Embora não existam levantamentos de curto prazo para mensurar o impacto exato, executivos e consultores apontam que o alto escalão das empresas quer conhecer o nome do novo ministro da Fazenda e as diretrizes do governo antes de planejar os próximos passos.

“A gente percebe que todo mundo está entrando numa espécie de piloto automático para tocar a operação no dia a dia e, no que se refere a novos projetos e expansões, principalmente no caso de quem depende de crédito, parou tudo”, diz o banqueiro Ricardo Lacerda, fundador e CEO do BR Partners, banco de investimento voltado a fusões e aquisições, mercado de capitais e reestruturações financeiras.

Cláudio Frischtak, fundador e presidente da consultoria Inter.B, ressalta que o comportamento varia entre os setores, mas lembra que os juros elevados já restringem os investimentos viáveis. “A desorganização das contas públicas cobra um preço altíssimo do investimento”, afirma.

Visão externa e exigência de previsibilidade

Axel Christensen, estrategista-chefe do BlackRock Investment Institute para a América Latina, mantém uma perspectiva favorável para o Brasil em áreas como energia verde, agronegócio e inovação, mas destaca que o potencial precisa ser executado.

“Quando se constrói um porto ou uma usina de energia, não se pensa no ano seguinte, nem mesmo nos próximos quatro anos de um governo Lula. Está-se pensando em vários mandatos presidenciais à frente. Mas, se um investidor não souber o que esperar, poderá escolher outro país que ofereça previsibilidade.”

O desafio das contas públicas e a reação oficial

Especialistas alertam que o governo enfrenta um cenário desafiador, marcado por juros e dívida elevados, desaceleração econômica e pressões inflacionárias. Promessas de campanha podem gerar um impacto adicional de até R$ 50 bilhões em 2027, gerando questionamentos sobre a acomodação dessas despesas. Apesar disso, o risco de calote é descartado pelo mercado, refletido no nível do CDS de cinco anos.

A resposta inicial do governo gerou atrito. O ministro Guilherme Boulos criticou as cobranças por ajuste fiscal. “Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição”, afirmou nas redes sociais. Em entrevista posterior, classificou a pressão como “chantagem”.

Analistas e economistas cobram medidas concretas

Para o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Barros, a urgência é matemática. O déficit primário e a dívida bruta em patamares elevados, combinados com juros reais expressivos, pressionam o orçamento e elevam o endividamento de famílias e empresas, refletindo-se em altas taxas de inadimplência e recuperações judiciais.

“Essa taxa de juros é inustentável, porque está comprometendo a renda das famílias e das empresas, e não vai cair se não houver uma melhora fiscal”, afirma Solange Srour, diretora de macroeconomia para Brasil do UBS GWM.

A necessidade de revisão de gastos é apontada inclusive por especialistas de correntes progressistas, como Nelson Marconi.

“A campanha não discutiu propostas, e o cenário ruim, de taxas de juros e endividamento elevados, permanece. Enquanto essa situação se prolongar, investidores e empresários param para esperar. Agora, tudo depende de Lula. O governo ainda não deu nem um sinal de mudança, mas precisa mudar logo.”

Fonte: Folha - Mercado