Crise no banco Ueno derruba presidente do banco Central do Paraguai
Uma grave instabilidade financeira no banco digital Ueno, que atende aproximadamente 3 milhões de clientes no Paraguai, resultou na demissão de Carlos Carvallo do comando do Banco Central paraguaio. O episódio gerou forte desgaste político para a administração do presidente Santiago Peña.
Problemas financeiros e investigações criminais
A instituição financeira funciona como a maior emissora de cartões de crédito do país vizinho e passou a ser investigada após correções em seus balanços. Com os ajustes, o índice de solvência da entidade desabou para menos da metade do patamar mínimo determinado pelas normas regulatórias.
Em resposta à gravidade da situação, o Banco Central adotou medidas emergenciais visando blindar os depositantes e conter possíveis reflexos negativos em toda a economia nacional. Simultaneamente, o Ministério Público protocolou um pedido formal para iniciar uma investigação criminal, resultando na decretação de prisões de oito indivíduos associados à empresa.
Impactos políticos e conexões com o poder
A fiscalização sobre a fintech já havia sido intensificada nos meses anteriores, com autoridades apurando indícios de financiamento indireto na alienação de ativos pertencentes ao Grupo Vázquez, controlador da instituição — operação negada pelo banco. O escândalo ameaça a atratividade do Paraguai para investimentos estrangeiros, especialmente de capitais brasileiros.
O chefe do BC deixou o cargo a pedido do presidente Peña, após pressões de parlamentares. Carvallo havia dirigido o próprio Ueno até agosto de 2023, enquanto o atual chefe de Estado manteve sociedade com o grupo controlador até março de 2025.
Apreensão de clientes e fundos públicos
Com o Ueno administrando cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, dezenas de cidadãos encontraram agências fechadas, incluindo aposentados dependentes de benefícios estatais.
“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores de Assunção. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.”
Para acalmar os ânimos, o governo articulou com o Congresso a tramitação em regime de urgência de um projeto que emprega o Fundo de Garantia nacional no ressarcimento aos depositantes. A medida visa proteger verbas estatais, tais como montantes do instituto previdenciário IPS.
Posição oficial e repercussão nos mercados
Tanto o Banco Central quanto o presidente paraguaio enfatizaram que a instabilidade é pontual.
“Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, declarou Santiago Peña, ressaltando que os envolvidos “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”.
Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o Ueno expandiu-se rapidamente de uma fintech restrita a um banco de porte intermediário. Contudo, as turbulências recentes causaram desvalorização nos títulos em dólar da empresa com vencimento em 2031, além de afetarem os papéis da dívida soberana paraguaia.
Fonte: G1 Economia