Democratas vencem nos EUA e ameaçam planos econômicos de Trump
A conquista do controle do Congresso americano pelo Partido Democrata nas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, traz uma reviravolta na política econômica de Donald Trump e gera reflexos diretos sobre os mercados internacionais e o Brasil.
Como funcionam as eleições de meio de mandato Realizado na última terça-feira (3), o pleito renovou todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, com mandatos de dois anos, e cerca de um terço do Senado, cujos mandatos duram seis anos. A votação não altera o comando da Presidência, mas redefine o equilíbrio de forças em Washington para o próximo biênio. Os democratas asseguraram 228 assentos na Câmara, superando a marca de 218 necessária para a maioria, e garantiram 54 das 100 cadeiras no Senado. O avanço veio acompanhado pela baixa popularidade de Trump, cuja administração enfrenta uma taxa de desaprovação de 66%, conforme levantamento da Reuters/Ipsos.
Impactos na agenda de Donald Trump A maioria oposicionista nas duas Casas cria barreiras significativas para a aprovação de projetos governamentais sobre impostos e gastos públicos, além de intensificar a fiscalização sobre o Executivo.
Andressa Durão, economista do ASA, destaca os efeitos dessa configuração política: “Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo.”
O desgaste político também é atribuído ao encarecimento do custo de vida. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, aponta que os eleitores demonstraram insatisfação com os preços elevados dos combustíveis, com a gasolina ultrapassando US$ 4 e o diesel superando US$ 6 por galão.
Apesar da derrota legislativa, o presidente preserva a prerrogativa de vetar projetos, exigindo uma maioria de dois terços no Congresso para derrubar eventuais vetos. No entanto, o controle democrático das comissões fiscalizadoras e do Senado confere à oposição o poder de barrar indicações estratégicas para o Federal Reserve (Fed) e para a Suprema Corte.
Antes da confirmação do resultado, Sung já alertava para a instabilidade financeira decorrente do cenário: “O mercado financeiro ainda não considerou plenamente a possibilidade de os democratas conquistarem o controle das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas de confronto, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais.”
Reflexos para a economia do Brasil Para o território brasileiro, a transmissão dos efeitos ocorre principalmente através da cotação do dólar e dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
As decisões legislativas sobre despesas e tributos afetam as projeções para as contas públicas americanas. Caso o endividamento cresça acima da arrecadação, os juros dos títulos públicos tendem a subir. Como esses papéis servem de referência global, taxas mais atraentes nos EUA podem estimular a saída de capital de países emergentes, pressionando o dólar para cima frente ao real e encarecendo o crédito e a taxa Selic no Brasil.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, aponta que uma vitória republicana integral facilitaria cortes de impostos e desregulamentações, o que poderia elevar o déficit, a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.
Segundo o analista, esse cenário traria consequências diretas: “Isso tende a pressionar o dólar para cima frente ao real, elevar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente de empresas mais endividadas e de setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.”
Em contrapartida, a oposição democrata no poder legislativo pode conter novos estímulos fiscais, aliviando a pressão sobre os juros americanos, atraindo investimentos para mercados emergentes e fortalecendo o real.
Relação bilateral e cenário cambial A dinâmica entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva adiciona uma camada extra de cautela aos investidores. A oposição fortalecida no Congresso americano pode frear novas barreiras comerciais e acelerar reações legislativas a eventuais atritos diplomáticos.
Apesar disso, o presidente americano ainda dispõe de mecanismos legais para impor tarifas, como a Seção 232, voltada à segurança nacional, e a Seção 301, aplicada contra práticas comerciais desleais, instrumentos já utilizados em medidas protecionistas contra o aço brasileiro.
No cenário interno, a moeda americana oscilou e retornou à faixa de R$ 5,40, influenciada tanto pela conjuntura externa de fortalecimento global do dólar quanto pelo contexto político local após o pleito nacional.
Gustavo Sung resume o comportamento atípico do câmbio: “O Brasil estava na contramão após o primeiro turno das nossas eleições. Com a vitória do presidente Lula e a frustração das apostas do mercado, o dólar voltou a subir.”
Fonte: G1 Economia