Eleições nos EUA podem redefinir a agenda de Trump e afetar dólar e juros no Brasil
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, agendadas para esta terça-feira (3), têm o potencial de redirecionar a política econômica do governo de Donald Trump, gerando desdobramentos diretos sobre a economia brasileira.
O impacto das midtests no Congresso americano
A batalha pelo domínio do Legislativo norte-americano define a margem de manobra que a gestão atual terá para implementar pautas fiscais, tributárias e regulatórias. Tais escolhas moldam as projeções dos mercados globais, repercutindo nas taxas de juros e no câmbio.
Conhecido como midterms, o pleito renova integralmente a Câmara dos Representantes, com 435 cadeiras de mandatos bienais, e um terço do Senado, que possui 100 vagas com mandatos de seis anos. Dessa forma, o arranjo de forças legislativas pode se transformar sem que haja alteração na chefia do Executivo.
As previsões apontam vantagem para os democratas na Câmara, enquanto o Senado exibe um cenário mais equilibrado. O contexto surge no momento em que a desaprovação ao governo atinge 66%, conforme levantamento da Reuters/Ipsos.
Cenários e reações do mercado financeiro
Projeções compiladas pelo BTG Pactual indicam obstáculos para os republicanos. No caso da Câmara, modelos estatísticos apontam ampla probabilidade de maioria democrata. No Senado, a disputa permanece acirrada, com estimativas indicando margens apertadas entre os dois partidos.
Uma eventual onda azul, que representaria o controle democrático de ambas as Casas, limitaria a capacidade de aprovação de medidas presidenciais e intensificaria a fiscalização sobre o Executivo.
“As apostas de mercado para as eleições de meio de mandato dos EUA vêm se deslocando a favor de uma onda democrata. Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo.”, avalia Andressa Durão, economista do ASA.
O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, atribui o desgaste político à insatisfação popular com o custo de vida, citando os patamares elevados dos combustíveis. Para ele, a oposição retomar ao menos uma das Casas já seria suficiente para travar a pauta governista.
Caso os democratas assumam o controle total do Legislativo, analistas alertam para riscos de maior volatilidade global devido a impasses políticos e potenciais pautas de confronto.
Reflexos na economia do Brasil
Para o mercado brasileiro, os reflexos ocorrem principalmente por meio dos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano e do comportamento da moeda estrangeira. O aumento nos gastos públicos nos EUA pode elevar os juros desses títulos, tornando os investimentos lá fora mais atrativos e provocando saída de capital de mercados emergentes como o Brasil.
Com menor fluxo de recursos estrangeiros, a cotação da moeda americana tende a subir frente ao real, pressionando os custos de financiamento interno e as expectativas para a taxa Selic.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, aponta que uma vitória republicana nas duas Casas facilitaria cortes de impostos e políticas comerciais duras, elevando a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.
“Isso tende a pressionar o dólar para cima frente ao real, elevar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente de empresas mais endividadas e de setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.”, afirma Praça.
Por outro lado, um triunfo democrata poderia conter a expansão de gastos, aliviar os juros americanos e atrair novamente investimentos para países emergentes.
Relação bilateral e tarifas comerciais
As incertezas também envolvem a dinâmica entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, com investidores atentos a possíveis atritos diplomáticos e comerciais.
“Com a reeleição de Lula, podemos esperar mais atritos como esses, caso os Republicanos vençam, ou um veto mais rápido caso os Democratas vençam. Atualmente quem tem derrubado tais ações é o Supremo dos EUA, porém por um processo mais moroso”, analisa Marcos Praça.
Apesar das disputas políticas, o presidente americano ainda dispõe de instrumentos legais na legislação comercial para taxar produtos importados, embora algumas medidas recentes tenham sofrido reversões judiciais na Suprema Corte dos Estados Unidos.
Fonte: G1 Economia