Mercado cobra ajuste fiscal e previsibilidade para o quarto mandato de lula
Representantes de diversos setores da economia, empresários e analistas financeiros manifestaram a expectativa de que o quarto mandato presidencial traga rigor fiscal, previsibilidade nas decisões e segurança jurídica para impulsionar a produção nacional.
Resultado eleitoral e cenário econômico
O atual presidente derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno realizado em um domingo. Aos 80 anos, ele assumirá o cargo em janeiro de 2027 com permanência prevista até o encerramento de 2030.
“Feita a virada política, é hora de governar e virar a economia”, afirmou o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. Durante a campanha, ele manifestou preocupação com a deterioração das contas públicas.
No entanto, promessas de campanha recentes — como tarifa zero nos transportes aos finais de semana, ampliação do Pé-de-Meia e perdão de dívidas para microempreendedores — somam gastos estimados em R$ 53,6 bilhões para o Orçamento de 2027, gerando alertas no mercado financeiro.
“Lula ganha do brasileiro uma nova oportunidade de fazer o que já deveria ter feito: governar para todos os brasileiros reduzindo a polarização, ser responsável com as contas públicas e fortalecer as instituições do Estado de Direito”, afirmou João Amoêdo, empresário e um dos fundadores do Partido Novo. “Se não fizer nada disso, teremos novamente um governo medíocre, que irá fortalecer uma candidatura bolsonarista para 2030.”
Ajuste fiscal como urgência
O economista Luiz Fernando Figueiredo destacou os riscos de herdar uma situação fiscal delicada.
“Do ponto de vista econômico, Lula está herdando do próprio governo dele, uma situação fiscal absolutamente insustentável, não só no longo prazo como no curto prazo. Então ele terá de fazer um ajuste importante e, caso não faça, vamos colher um ano, muito provavelmente, com recessão já bastante razoável. Ele vai ter que mostrar esse ajuste para que minimamente tenha alguma condição de governar”, diz Figueiredo.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, também reforçou a necessidade de reequilíbrio. “Os desafios econômicos são grandes, a começar pelo reequilíbrio das contas públicas, mas venceu a democracia e, sob ela, há efetiva possibilidade de construção.”
A definição rápida do novo ministro da Fazenda é vista por especialistas como o termômetro inicial para a condução das despesas públicas.
“É uma virada surpreendente e uma vitória é incontestável. Desde a redemocratização do Brasil nunca houve uma virada como essa”, afirmou CEO da consultoria Zag Work, que foi presidente da Anfavea e vice-presidente da Ford na América do Sul. “O grande desafio daqui para a frente é o plano de governo em uma economia que precisa de ajustes que, normalmente, não são populares e um congresso que ainda é menos alinhado com a visão que Lula tem tido até agora.”
Daniel Wainstein, da Seneca Evercore, aponta o INSS como ponto central. “Espero que [Lula] reconheça que adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo”, afirma. Por sua vez, Flávio Augusto da Silva alerta para os reflexos nas taxas de juros: “É um cenário que pode prolongar a permanência dos juros acima de dois dígitos, impondo desafios adicionais às empresas, especialmente àquelas que ainda administram dívidas contraídas durante a pandemia”, diz ele.
Pleitos do setor produtivo
Lideranças setoriais enfatizam a urgência de reformas estruturais. Murilo Barbosa, da ATP, defende a redução do “custo Brasil”, enquanto Augusto Salomon, do Sindicom, pede simplificação tributária e foco em infraestrutura nos primeiros 100 dias. Já Paulo Solmucci, da Abrasel, demonstra preocupação com os impactos da escala 6×1.
Do lado do crédito e consumo, Renata Herani (Technobank) e Ana Celina Bueno (Fenapro) destacam a importância da mobilidade e de incentivos amplos. “Juros baixos, crédito, infraestrutura é o que o setor produtivo espera. Tendo sinais de retomada o mercado todo reage e isso sempre é perceptível de forma rápida no nosso segmento”, avalia Ana Celina.
Finalizando as demandas por ambiente de negócios, Breno Masi, do iFood, reforça a necessidade de valorização de quem produz: “Não podemos continuar tratando quem empreende como se fosse parte do problema”, afirma.
Fonte: Folha - Mercado