Inteligência artificial conquista médicos nos EUA e valoriza startup
Quase dois terços dos médicos dos Estados Unidos estão utilizando ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial para auxiliar na tomada de decisões sobre pacientes. Essa forte adesão alçou a startup OpenEvidence, fundada em Miami em 2022 por Daniel Nadler, a uma avaliação de mercado de US$ 15 bilhões, gerando debates intensos sobre os rumos da assistência médica moderna.
Crescimento acelerado e viralização
De acordo com dados divulgados pela empresa, cerca de 1 milhão de médicos americanos enviaram mais de 42 milhões de consultas à plataforma em apenas um mês. Os profissionais recorrem ao chatbot para consultar diretrizes clínicas e periódicos especializados, agilizando processos de diagnóstico e tratamento. O modelo de negócios é financiado por anúncios e expandiu-se organicamente por meio de indicações entre os próprios profissionais da área.
“Somos o primeiro aplicativo de internet voltado ao consumidor na área da saúde a se tornar viral”, disse Nadler ao Financial Times em entrevista.
Parcerias e integração hospitalar
A aceitação massiva da tecnologia abriu portas para parcerias estratégicas com grandes redes de saúde e hospitais de referência, a exemplo do Mount Sinai Health System, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center e da NYU Langone, onde a ferramenta foi integrada diretamente aos sistemas de prontuários eletrônicos.
“Decidimos integrar profundamente uma versão da OpenEvidence adaptada à prática clínica ao processo de atendimento para garantir duas coisas: primeiro, que nossos médicos tirem o máximo proveito dessas ferramentas de IA; segundo, que as utilizem com segurança”, afirmou Paul Testa, diretor de informática em saúde da NYU Langone.
Profissionais que utilizam o sistema destacam o ganho de eficiência no dia a dia hospitalar.
“A OpenEvidence me permite fornecer muito contexto sobre meu paciente, encontrar informações e tomar decisões com mais rapidez”, disse Nina Singh, médica residente da Universidade da Califórnia em São Francisco. “É uma ferramenta muito útil.”
Desafios, concorrência e divergências
Apesar do sucesso comercial e de captar quase US$ 1 bilhão em rodadas recentes de financiamento com fundos como Andreessen Horowitz, Blackstone, Thrive Capital e Sequoia, a startup enfrenta questionamentos de críticos sobre a sustentabilidade do modelo publicitário e o rigor científico da plataforma.
Enquanto estudos conduzidos por instituições como a Mayo Clinic apontaram precisão nas recomendações da ferramenta, pesquisas acadêmicas — incluindo um artigo publicado na revista Nature — indicaram desempenho inferior da plataforma em avaliações clínicas quando comparada a modelos generalistas como o Gemini e o GPT.
Especialistas também demonstram cautela quanto ao risco de dependência excessiva por parte de médicos em início de carreira, além do avanço de concorrentes de peso como OpenAI e Anthropic no mercado de saúde.
Planos futuros e foco em novos tratamentos
Para se diferenciar no mercado, a empresa planeja iniciar testes clínicos voltados a pesquisas sobre câncer e doenças raras, utilizando mineração de dados científicos para acelerar a descoberta de novos medicamentos.
“O objetivo final é a descoberta de medicamentos com base na literatura científica”, disse Nadler, referindo-se ao campo que utiliza a mineração de dados de publicações científicas para encontrar novas informações. “O valor econômico disso para uma empresa será, por ordens de grandeza, maior do que qualquer receita que pudéssemos cobrar de hospitais ou anunciantes.”
“É uma pressão competitiva divertida e amigável disputar espaço nos rankings de desempenho […]. Mas não há dúvida sobre qual ferramenta de IA os médicos confiam e utilizam”, concluiu o fundador.
Fonte: Folha - Tecnologia