Lojas físicas viram vitrines da internet e mudam hábito de compra
O setor varejista brasileiro enfrenta grandes dificuldades para equilibrar as contas, o que tem obrigado empresas a cortar custos, reduzir o número de unidades e buscar operações mais eficientes. Essa revisão estratégica é impulsionada principalmente por uma transformação profunda no comportamento de consumo: as pessoas pesquisam valores na rede, vão até os estabelecimentos físicos para conhecer os itens de perto e frequentemente concluem a aquisição no comércio eletrônico.
O desafio do showrooming no varejo tradicional
Esse fenômeno, amplamente conhecido como showrooming, evidencia um dos maiores dilemas do mercado atual. Enquanto plataformas digitais e marketplaces intensificam a concorrência pressionando os preços para baixo, as famílias lidam com um cenário de restrição orçamentária, marcado por juros elevados e crédito caro que limitam o poder de compra.
Uma pesquisa realizada em agosto pela Smollan, empresa especializada em soluções para o varejo, mapeou 1.828 consumidores em 156 cidades de 25 estados brasileiros. O levantamento demonstra que a jornada atual mistura os mundos físico e digital de forma intensa: 76% dos entrevistados afirmaram já ter visto um produto em uma loja física e comprado pela internet posteriormente.
O tráfego também ocorre no sentido inverso. Cerca de 81% dos participantes disseram pesquisar na internet antes de realizar uma compra em uma loja física, enquanto 87% afirmaram já ter entrado em um estabelecimento para adquirir um item específico e saído com outro diferente.
“O digital mudou a forma como o consumidor chega à loja, mas não reduziu a capacidade do ponto de venda de influenciar a escolha”, afirma Renato Vechiatto, diretor de operações (COO) da Smollan para a América Latina.
“O consumidor chega à loja mais informado e, muitas vezes, já tem uma decisão encaminhada. Ainda assim, fatores como preço, disponibilidade, promoções e experiência de compra podem influenciar sua escolha. Para as marcas, isso reforça a importância de garantir que os produtos estejam disponíveis e bem apresentados nas lojas”, afirma Vechiatto.
Por que o público continua visitando pontos físicos?
Apesar da facilidade proporcionada pelo e-commerce, o contato visual direto com a mercadoria permanece como um forte atrativo. Para 46,1% dos entrevistados, ver o produto pessoalmente é um fator determinante para visitar o ponto de venda, ao passo que 29,2% valorizam a oportunidade de sair do local já com o item em mãos.
Contudo, a preferência pelos canais muda conforme o setor. No segmento de carnes, 93,4% dos consumidores preferem as lojas físicas, índice que chega a 92% no caso de hortifrútis. Em contrapartida, no mercado de eletrônicos o cenário é mais equilibrado: 39,6% optam pelo presencial, 39% alternam entre os meios e 22% compram exclusivamente na internet.
Para o executivo da Smollan, os canais não precisam disputar espaço, mas sim atuar em conjunto. Quando o varejista não consegue cobrir os valores praticados na rede, alternativas podem garantir a conversão.
“Nem sempre será possível cobrir o preço do comércio eletrônico, mas é possível oferecer outras alternativas, como crediário, seguro e acessórios, ou até apresentar outro modelo de produto. A capacitação dos vendedores é importante para que a experiência seja única”, afirma Vechiatto.
Preço, promoções e o problema dos estoques
O fator financeiro continua ditando as regras do mercado. O preço foi considerado relevante na decisão de compra por 77,7% das pessoas, seguido de perto pelas promoções, citadas por 61,1%. Além disso, 59,6% dos consumidores apontaram as ofertas especiais como o principal atrativo visual dentro de um estabelecimento.
Por outro lado, falhas na gestão de estoque geram frustração e perda de receita. Cerca de 27% dos entrevistados indicaram que a disponibilidade de produtos é o ponto que mais precisa de melhorias, superando questões como preços (20,9%) e integração multicanal (17,6%). Inclusive, 57% relataram já ter desistido de adquirir um item presencialmente por falta de estoque.
“A falta de um produto pode levar o consumidor a desistir não apenas daquele item, mas também de continuar comprando na loja. Por isso, garantir a disponibilidade e a boa exposição dos produtos no ponto de venda é tão importante para os resultados das marcas”, afirma Vechiatto.
Adaptação e o futuro das lojas físicas
Manter uma estrutura física exige altos investimentos em aluguel, equipes e logística, o que obriga redes varejistas a priorizarem unidades altamente rentáveis e formatos enxutos. A integração tecnológica e o alinhamento de estoques entre centros de distribuição e lojas físicas tornam-se indispensáveis para evitar a perda de clientes para a concorrência digital.
“A gente prevê um alinhamento, uma linguagem única, mantendo as características de cada canal. O consumidor que busca essencialmente preço pode ir até a loja física, mas ser orientado a comprar no digital. Os canais sempre serão ambientes que se complementam, mas a integração permite que o varejista não perca vendas para a concorrência”, conclui o diretor de operações da Smollan.
Fonte: G1 Economia