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Caderno Mercado

Novo livro expõe como a internet virou um shopping repleto de robôs

Novo livro expõe como a internet virou um shopping repleto de robôs

O livro A internet não precisa ser assim, lançado pela Diálogos Editora por R$ 65 com 155 páginas, traz uma análise profunda sobre a transformação radical da rede mundial de computadores nas últimas décadas. Escrita pelos jornalistas Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares, a obra utiliza uma capa emblemática com a ilustração do personagem TVnauta — grafite do artista Celso Gitahy na rua Treze de Maio, em São Paulo — para simbolizar como os usuários estão conectados, mas profundamente isolados e desorientados.

Raízes da desilusão digital Os autores, que vivenciaram a chegada da tecnologia no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, iniciam a publicação com uma declaração de amor àquela internet utópica da juventude. Contudo, o choque de realidade domina os cinco capítulos seguintes, onde o casal aponta cinco grandes vilões responsáveis por frustrar as promessas iniciais da rede: plataformas muradas, bilionários com interesses particulares, marketing baseado em vigilância, sistemas de retenção inspirados em cassinos e a invasão de robôs impulsionada pela inteligência artificial generativa.

Conceitos-chave para entender a web moderna Mais do que aprofundar cada mazela isoladamente, a publicação funciona como um raio-X da internet popular contemporânea, entregando aos leitores uma caixa de ferramentas conceituais. Entre os termos destacados está a “merdificação”, cunhada pelo escritor canadense Cory Doctorow para explicar a dinâmica de degradação dos serviços em prol do lucro.

“Depois de criar dependência, elas tentam agradar os parceiros comerciais empurrando goela abaixo dos usuários, que ficam porque o produto funciona e é de graça. No fim, as big techs traem os próprios parceiros em prol dos próprios lucros”, sintetiza o livro.

Outra referência importante abordada na obra é o “capitalismo de vigilância”, termo da socióloga Shoshana Zuboff que descreve a extração massiva de dados pessoais para a previsão de comportamento e geração de receita corporativa.

A lógica dos cassinos e da gamificação A pesquisa aponta que o modelo baseado estritamente em dados vem cedendo espaço a táticas ainda mais agressivas de captura de atenção. Diante da dificuldade de prever o comportamento humano com exatidão, as gigantes tecnológicas adotaram artifícios que transformam a navegação em um jogo de azar, exemplificado não apenas pelo “jogo do tigrinho”, mas por uma estrutura ampla de apostas.

Esse cenário se conecta à gamificação, conceito do designer Adrian Hon que aplica elementos de jogos, como pontuações e recompensas, para forçar o engajamento contínuo. Em sua vertente mais perigosa, o sistema explora a compulsão e o medo de ficar de fora, mantendo o público preso à tela mesmo quando a navegação deixa de ser útil ou prazerosa.

Caminhos para a salvação digital Apesar do diagnóstico crítico, a publicação não se limita a apontar problemas e encerra com sugestões práticas para resgatar o prazer no uso da rede, indo desde a redução do tempo de tela até a adoção de aplicativos criados fora do controle das grandes corporações.

“Você que usa a internet e sabe a importância dela para tantos aspectos da sua vida, deve saber que ela não precisa ser assim”, escrevem os autores no fim.

Fonte: Folha - Tecnologia