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Call of duty e a realidade: Coreia do norte pode invadir o sul?

Call of duty e a realidade: Coreia do norte pode invadir o sul?

O lançamento do trailer da nova sequência da franquia de jogos eletrônicos Call of Duty reacendeu o debate sobre um possível conflito na península coreana ao retratar jovens recrutas sul-coreanos enfrentando um ataque surpresa com mísseis vindos do norte.

O contexto histórico e a divisão da península

A tensão atual remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, período que marcou a divisão da península. Em 25 de junho de 1950, as tropas do norte atravessaram a fronteira e iniciaram a Guerra da Coreia, um confronto sangrento que envolveu superpotências globais como a União Soviética e os Estados Unidos. Os combates resultaram em um armistício assinado em 27 de julho de 1953, criando uma zona desmilitarizada e deixando os dois países tecnicamente em guerra por mais de sete décadas.

Mudanças políticas e a probabilidade de um ataque

Embora o regime do norte tenha defendido a reunificação pacífica por anos, a postura mudou drasticamente em janeiro de 2024. A Constituição do país foi alterada para classificar a Coreia do Sul como o principal inimigo. Apesar disso, agências de inteligência apontam que arsenais nucleares e de mísseis funcionam primariamente como dissuasão.

Markus Garlauskas, ex-oficial de Inteligência Nacional dos Estados Unidos para a Coreia do Norte e integrante do centro de estudos Conselho do Atlântico, afirmou que, se Pyongyang realmente atacasse seu vizinho do sul, provavelmente seria em “escala limitada”, com mísseis e a ameaça de escalada nuclear.

Desafios militares e o poderio tecnológico

Apesar de contar com um efetivo de 1,2 milhão de soldados e maior volume de tanques e artilharia em comparação ao sul, o exército norte-coreano enfrenta barreiras estruturais significativas, como o uso de equipamentos obsoletos da era soviética e uma burocracia militar rígida.

Em contrapartida, o professor Fyodor Tertitskiy, da Universidade da Coreia, destaca que “eu teria cautela ao menosprezar as vantagens da Coreia do Sul no poderio aéreo”, ressaltando o avanço tecnológico e o alto orçamento de defesa de Seul, estimado em dezenas de bilhões de dólares.

A vulnerabilidade geográfica e a ameaça a Seul

Mesmo com superioridade tecnológica, a Coreia do Sul lida com desvantagens geográficas drásticas. A proximidade da capital Seul em relação à zona desmilitarizada deixa a metrópole vulnerável a ataques de artilharia massivos, uma situação agravada por uma severa crise demográfica que diminui o número de recrutas disponíveis.

Bruce Klingner, ex-analista da CIA e da Agência de Inteligência de Defesa que hoje atua na Fundação Maureen e Mike Mansfield, alerta para o potencial destrutivo de armamentos convencionais mantidos próximos à fronteira:

“A Coreia do Norte detém artilharia em massa destacada perto da zona desmilitarizada, que poderia ser disparada contra Seul sem se movimentar”, afirma ele.

“Pyongyang também conta com centenas de milhares de mísseis e alguns deles podem se esquivar das defesas antimísseis aliadas.”

Consequências globais de um confronto

Especialistas concordam que a probabilidade de uma invasão em grande escala permanece baixa, mas as repercussões de um conflito armado seriam catastróficas, podendo envolver potências como China e Rússia e gerar riscos de uma guerra termonuclear.

Apesar das críticas recebidas pela representação do conflito na mídia, moradores locais como Tertitskiy enxergam valor na discussão gerada pelo entretenimento:

“Seja ele incorreto ou não, o jogo fará muitas pessoas pensarem na nossa península”, conclui ele.

Fonte: Folha - Tecnologia