Promessas de Lula e Flávio ignoram rombo e indicam novo choque
Na reta final da corrida presidencial de 2026, o cenário político brasileiro caminha para a repetição de um roteiro conhecido: a disparidade entre o discurso eleitoral e a sustentabilidade das contas públicas. Ao multiplicarem compromissos financeiros sem detalhar como pretendem financiá-los, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) colocam o país diante do risco iminente de um novo estelionato eleitoral logo após a abertura das urnas.
O abismo entre os planos de campanha e a realidade fiscal
O estrangulamento orçamentário do Brasil deixa margem mínima para manobras. Com a dívida pública estimada em 83,4% do Produto Interno Bruto (PIB) até o término do ano e um déficit nominal de R$ 1,26 trilhão acumulado em 12 meses — valor correspondente a 9,6% do PIB —, o futuro chefe do Executivo terá pela frente decisões amargas para evitar a disparada da inflação, dos juros e do dólar.
A despeito da gravidade desse quadro, os projetos apresentados pelas duas candidaturas apontam para mais despesas. Lívio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e pesquisador do Ibre-FGV, avalia o cenário:
“O ´estelionato eleitoral` vem, nos dois casos. A discussão é qual será o tamanho e quem vai ser enganado, pois foi uma eleição excêntrica, sem propostas e projeto para o país. Mas haverá afetados”, diz.
Pacote bilionário de Lula e o ajuste velado de Flávio
Pelo lado governista, a estratégia tem sido lançar uma série de medidas com forte peso orçamentário. Cálculos elaborados pela Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, revelam que as ações articuladas por Lula alcançam quase R$ 300 bilhões em 2026. Desse total, R$ 93,8 bilhões incidem diretamente no resultado primário, enquanto R$ 185,7 bilhões referem-se a iniciativas de crédito subsidiado.
O pacote inclui desde a anistia de débitos e transferências de R$ 5.000 via Pix para o Microempreendedor Individual (MEI) até a extensão do Pé-de-Meia Universitário. O petista também incorporou à retórica a proposta de passe livre no transporte coletivo aos finais de semana e a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, sem apontar as fontes de receita necessárias.
Já o candidato da oposição oscila entre a moderação discursiva e os planos de seus correligionários. Flávio Bolsonaro posicionou-se favorável ao fim da escala 6×1 de trabalho, contrariando sua conduta tradicional no Congresso — embora aliados admitam a intenção de derrubar a pauta caso vença. Ao mesmo tempo em que nega a execução de cortes, o núcleo do senador debate nos bastidores um freio de gastos da ordem de R$ 250 bilhões.
Precedentes de guinadas econômicas após as urnas
O represamento de medidas impopulares para o momento posterior à apuração é uma prática recorrente na história democrática nacional:
- 1986: O governo José Sarney sustentou o congelamento do Plano Cruzado até a vitória avassaladora do PMDB nos estados, anunciando aumentos generalizados de tarifas poucos dias depois.
- 1990: Fernando Collor omitiu na campanha o confisco de depósitos em poupança e cruzados novos, desencadeando forte recessão logo ao assumir.
- 1998: Fernando Henrique Cardoso assegurou a reeleição respaldado pelo câmbio estável, mas abandonou o regime de bandas já em janeiro de 1999 sob fuga de reservas.
Em seus “Diários da Presidência”, FHC confessou a manobra antes de sua vitória em primeiro turno: “Tem um ponto que os críticos não pegaram, só um ou outro economista percebeu. Tudo isso que eu digo –déficit fiscal e tudo mais– é meio que meia verdade. Não que não exista deficit a ser combatido, mas a questão que nunca foi posta [pelo governo] é a cambial. É a questão central.”
Anos mais tarde, em 2014, Dilma Rousseff reelegeu-se atacando o rigor orçamentário sugerido por rivais. Em seguida, colocou Joaquim Levy na Fazenda para aplicar um aperto severo que culminou em crise política e retração econômica expressiva.
“É triste que o PT não tenha aprendido com aquela crise, quando errou completamente, e continua insistindo em uma macroeconomia inconsistente”, afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre-FGV. “Se vencer e tiver que mudar de rumo, ainda corre o risco de ter resistências no Congresso de oposição, que pode querer esperar uma crise severa para agir.”
A analista pontua ainda que, mesmo se Flávio vencer e promover um arrocho, encontrará barreiras em um Legislativo “gastador”, embora o mercado financeiro tenda a lhe conceder mais paciência inicial.
O choque inevitável no pós-eleição
As oscilações também marcaram gestões recentes: a agenda pró-reformas de Jair Bolsonaro em 2018 deu lugar à expansão de benefícios e à PEC Kamikaze antes do pleito de 2022. Lula, por sua vez, garantiu a PEC da Transição ao reassumir em 2023, frustrando fatias mais ao centro que esperavam comedimento fiscal.
Independente do vencedor em 2026, economistas ressaltam que o choque de realidade será compulsório. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos: “Deve ser difícil e doloroso. Mas não fazer vai ser pior, principalmente no caso do Lula. Seria um desastre, e a conta, ainda maior”.
O represamento do debate durante a disputa priva a sociedade de dimensionar
Fonte: Folha - Mercado