Brasil vive primeira eleição do precariado, diz economista
A transformação das relações produtivas gerou uma camada social sem estabilidade que hoje redefine os rumos políticos globais e chega com força ao processo eleitoral brasileiro. O alerta parte do economista britânico Guy Standing, que cunhou e popularizou o termo há uma década e meia ao mapear o avanço de trabalhadores sujeitos à instabilidade crônica, sem garantias previdenciárias e com horizontes incertos.
A força eleitoral da vulnerabilidade
Para o pesquisador, o pleito nacional reflete diretamente essas tensões estruturais acumuladas ao longo das últimas décadas. O Brasil é um caso extraordinário. Infelizmente, eu chamaria a sua atual eleição presidencial de a primeira eleição do precariado, porque ela está sendo decidida por essa nova estrutura de classes.
Essa dinâmica não se restringe às fronteiras nacionais. O economista aponta que os avisos feitos no passado sobre a capacidade de desestabilização política desse grupo se confirmaram no cenário internacional. Infelizmente, meu alerta, ou previsão, se concretizou, ressalta Standing, relacionando esse fenômeno à vitória de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e à ascensão de lideranças conservadoras em várias democracias ocidentais.
As três dimensões do precariado
Diferente do operariado tradicional ou de quem atua por conta própria em pequenos negócios, o precariado se define pela dependência estrita de salários em dinheiro em um ambiente de fragilidade contratual. Essa classe possui três características determinantes:
* Relações de trabalho instáveis: os indivíduos aceitam ocupações precárias mesmo tendo, pela primeira vez na história das classes de massa, nível educacional superior às funções exercidas. Também despendem tempo não remunerado lidando com burocracias do Estado. * Dependência do salário direto: perda do acesso aos bens coletivos e ausência de benefícios indiretos fornecidos por empresas ou direitos públicos. * Perda de seguridade e cidadania: vivência de uma vulnerabilidade permanente, que retira a autonomia dos cidadãos frente a empregadores, proprietários e burocratas.
O pesquisador também adverte que o ecossistema de transporte e entregas por plataformas digitais é apenas uma fração desse quadro geral. Na visão de Standing, limitar o debate à uberização impede a compreensão profunda do problema.
Divisão interna: atavistas e progressistas
O precariado não atua como um bloco homogêneo nas urnas. Há uma divisão nítida entre duas alas geradas pelo mesmo sistema econômico:
Os atavistas
Formado pela parcela de menor instrução formal, esse grupo tende a cultivar nostalgia pelo passado e se torna receptivo a discursos populistas focados em valores religiosos, pátria e restauração da ordem.
Os progressistas
Composto por pessoas que ingressaram no ensino superior sob a expectativa de ascensão social, mas encontraram um mercado sem oportunidades seguras. Desiludidos com a burocracia estatal e sem opções claras no espectro político tradicional, tendem a rejeitar a extrema direita, mas frequentemente optam pela abstenção.
Endividamento e limites da esquerda
O crescimento expressivo do endividamento das famílias acentua o desgaste psicológico e a aversão ao risco. Sob a financeirização contínua e a estagnação salarial, qualquer imprevisto de saúde ou desemprego ameaça a sobrevivência imediata. Standing pontua que essa insegurança permanente corrói a tolerância coletiva, criando terreno fértil para governos autoritários.
Por outro lado, o economista avalia que os partidos de esquerda tradicionais falharam ao responder a esse contingente. Embora reconheça o papel histórico de programas de transferência de renda, Standing defende que tais medidas precisavam ter avançado para modelos de renda básica universal incondicional e proteção dos bens comuns, superando aparatos estatais paternalistas para que o precariado encontre representação efetiva.
Fonte: Folha - Mercado