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Caderno Mercado

Preço do petróleo se mantém elevado mesmo com retomada de exportações

Preço do petróleo se mantém elevado mesmo com retomada de exportações

O mercado global de petróleo enfrenta um cenário intrigante oito meses após o início do conflito envolvendo o Irã. O avanço nas exportações do Oriente Médio desde setembro não foi suficiente para conter a alta da cotação internacional, que se aproxima dos patamares máximos registrados em abril.

Dados da Vortexa indicam que as remessas da região ultrapassaram 17 milhões de barris diários na semana que terminou em 23 de outubro, ficando apenas 4 milhões abaixo dos volumes de 2025. Paralelamente, o contrato futuro do Brent acumulou valorização de 20%, alcançando US$ 115 por barril.

A reviravolta na política comercial da China A mudança no comportamento de consumo e importação da China é o primeiro elemento que ajuda a justificar os patamares atuais da commodity. No primeiro semestre, Pequim proibiu a saída de derivados para preservar o abastecimento interno, fazendo com que as importações de óleo cru caíssem pela metade entre fevereiro e junho.

Com a trégua temporária entre Estados Unidos e Irã em junho, refinarias chinesas pressionaram pelo fim do embargo. A partir de julho, o país asiático retomou os embarques de derivados e elevou as compras do produto bruto. Nas três semanas até 16 de outubro, o volume importado ficou mais de 3 milhões de barris diários acima do patamar de junho, absorvendo parte da oferta do Oriente Médio, conforme aponta Neil Crosby, da consultoria FGE NexantECA.

Impacto do frete marítimo e custos de transporte O encarecimento dos fretes navais atua como o segundo vetor de pressão sobre os valores globais. A estratégia chinesa de buscar oportunidades no mercado à vista gerou uma demanda imprevisível e onerosa por petroleiros, segundo avaliação de Tom Reed, da agência Argus Media.

A alta nas exportações via estreito de Hormuz intensificou a utilização de navios-tanque estatais, que operam de forma clandestina e realizam transferências de carga no golfo de Omã. Esse processo reduziu a disponibilidade de embarcações e elevou os custos logísticos mundialmente. A participação do frete no valor de entrega para compradores chineses saltou de uma faixa entre 4% e 7% para 25% e 30% em outubro.

Prêmio geográfico e volatilidade de preços Esse cenário inflacionário gerou distorções regionais. Produtores distantes da América Latina e da África Ocidental precisaram conceder descontos, enquanto concorrentes do Mar do Norte aplicaram preços próximos ao valor máximo. O chamado “prêmio geográfico” ampliou a diferença entre os tipos de óleo para cerca de US$ 60 por barril.

Apesar disso, os fundamentos de oferta e demanda não justificam integralmente a distância entre o preço atual do Brent e o seu valor justo estimado. Cálculos do JPMorgan Chase apontam que a cotação deveria estar cerca de US$ 20 mais baixa, evidenciando o peso do terceiro fator: o risco geopolítico.

Incertezas geopolíticas e perspectivas futuras O temor de novos episódios de violência no Oriente Médio mantém os investidores em alerta. Em outubro, o Irã atacou ao menos 30 embarcações, e rebeldes houthis do Iêmen investiram contra alvos na Arábia Saudita.

Especulações sobre possíveis ações militares adicionais e o baixo volume de negociações de contratos futuros ampliam a volatilidade, fazendo com que cada sinalização política impacte de forma desproporcional as cotações. Especialistas avaliam que novos ataques em grande escala poderiam levar o barril para a faixa de US$ 130 a US$ 140, enquanto a expectativa dos operadores reflete o receio de que os gargalos de abastecimento persistam até 2027.

Fonte: Folha - Mercado