Protestos no Paraguai após colapso de banco digital e queda no BC
Uma onda de manifestações tomou conta de Assunção nesta terça-feira (3), reunindo milhares de cidadãos que exigem a liberação de saldo retido após o colapso do Ueno, uma das maiores instituições financeiras digitais do país, com cerca de 3 milhões de clientes.
Impacto nos serviços e fundos públicos
A turbulência financeira afetou severamente o atendimento ao público, com agências de portas fechadas e paralisação nos pagamentos por aplicativos e cartões, prejudicando inclusive aposentados que dependem da instituição para receber benefícios governamentais. O banco administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos de previdência.
Diante do bloqueio dos valores depositados, corajosos manifestantes foram às ruas cobrar soluções e registraram confrontos com forças de segurança na capital paraguaia.
“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores da capital paraguaia. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.”
Ações do governo e investigações
Para tentar conter os danos econômicos e políticos, o presidente Santiago Peña articulou com o Congresso a tramitação urgente de um projeto para utilizar o Fundo de Garantia na indenização dos correntistas e na recuperação de valores públicos aplicados na instituição. O Ministério Público também determinou a prisão de oito pessoas, entre diretores e membros do grupo controlador, além de abrir inquérito criminal.
O escândalo gerou forte desgaste político para o atual mandatário, que manteve sociedade com o grupo controlador do Ueno até março de 2025. A pressão culminou na demissão do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que já havia dirigido o banco privado e enfrentava duras críticas do parlamento pela condução da fiscalização regulatória.
Ao anunciar sua renúncia, Carvallo afirmou que permaneceria no cargo durante o procedimento adotado pelas autoridades para lidar com a crise. Segundo ele, a saída ajudaria a reduzir a controvérsia em torno do Banco Central e permitiria que a instituição e a Superintendência de Bancos trabalhassem sem disputas políticas e pressão da imprensa.
Repercussão no sistema financeiro
As autoridades econômicas tentam isolar o impacto do caso para evitar contágio na economia paraguaia, garantindo que a instabilidade está restrita à instituição afetada e não reflete falhas estruturais generalizadas.
O Banco Central afirmou que o caso do Ueno é isolado e não representa problemas mais amplos no sistema financeiro paraguaio. Peña também tentou afastar preocupações sobre a estabilidade do setor.
“Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, declarou o presidente.
Peña acrescentou que os responsáveis pelo caso “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”.
Enquanto auditores fiscais iniciam verificações aprofundadas nos ativos da entidade, a desconfiança gerada nos mercados já provocou forte desvalorização nos títulos em dólar da empresa com vencimento em 2031, além de atingir os papéis da dívida soberana do país.
Fonte: G1 Economia