Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Protestos de jovens tomam ruas da Europa alimentados por falta de futuro

Protestos de jovens tomam ruas da Europa alimentados por falta de futuro

De Milão a Marselha, passando por Madri e diversas outras localidades, as ruas europeias foram tomadas por manifestações intensas e coloridas nas últimas semanas. Na França, mais de 300 mil pessoas saíram às ruas em um único sábado, resultando em cerca de 290 prisões, de acordo com o Ministério do Interior. Enquanto isso, na Alemanha, cidades como Berlim, Frankfurt, Colônia e Hamburgo registraram confrontos e saques, exigindo o uso de canhões de água pela polícia.

A dinâmica digital e a “tiktokização” dos protestos

Estudantes de países como França, Bélgica, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Sérvia e Albânia organizam os atos de forma improvisada através de plataformas digitais como o Instagram e o TikTok. O ministro do Interior da Bélgica criticou o fenômeno ao apontar a chamada “tiktokização” dos protestos. Inspirados por movimentos internacionais — como o Partido do Povo Barata na Índia —, os jovens utilizam hashtags como a francesa Lycées Indignés para convocar atos. Na Grécia, o estudante Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, relatou à agência de notícias AFP: “Os prédios escolares estão em péssimas condições e são mal conservados… Acho que alguma coisa pode mudar por causa do que a França está fazendo. A França vai impulsionar a Grécia”.

Estagnação econômica e o alto custo de vida

Além de problemas estruturais na educação, os jovens enfrentam um cenário de estagnação econômica, temores em relação à inteligência artificial e preocupações ambientais. O encarecimento do custo de vida ameaça a conclusão de estudos e o acesso à moradia. Em Portugal, a pesquisadora Carolina Cruz, de 26 anos, relatou à agência de notícias Reuters o risco de perder sua residência: “Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar”. Na mesma linha, o manifestante Riccardo, de 22 anos, destacou em Milão à agência AFP: “Mesmo que não consigamos mergulhar o país no caos, como na França, ou bloquear todas as estradas, como na Espanha, o objetivo é pelo menos fazer com que as pessoas voltem a discutir esses problemas”.

Crises acumuladas e o enfraquecimento social

Para Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a Europa sofre com um acúmulo de crises sucessivas e não resolvidas que transbordam para as ruas. “Uma crise se sobrepõe à outra”, disse Leonard à BBC. “A crise financeira de 2007 e 2008, a crise migratória de 2015, a crise ambiental, a pandemia de covid-19, a inflação após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e agora, mais uma vez, com a guerra do Golfo.” O especialista acrescenta que a polarização é alimentada por algoritmos: “Já vimos isso nos Estados Unidos”, afirmou Leonard. “É a sensação de que ‘a minha crise é mais importante do que a sua’.” Por sua vez, Nathalie Tocci, professora da Universidade Johns Hopkins, pontua que a juventude mantém alto engajamento político por meio da mobilização popular. “Temos a tendência de achar que os jovens são desinteressados e alheios à política. Pensamos que eles nem se dão ao trabalho de votar, por exemplo, mas, na verdade, são muito engajados”, afirmou Tocci à BBC. “Só que participam de uma maneira diferente, mais ligada à mobilização popular. Basta lembrar o ‘Fridays for Future’ (Sextas-feiras pelo Futuro, em tradução livre), movimento ambientalista que se espalhou pela Europa há anos, ou as manifestações contra as ações de Israel em Gaza depois de 7 de outubro.”

Respostas governamentais e o futuro político

Diante da violência e dos saques oportunistas atribuídos por autoridades a grupos radicais e vândalos urbanos, governos buscam endurecer as punições. A Itália e a França promovem a política de responsabilização financeira dos pais e reparação de danos. Contudo, analistas apontam que o contrato social europeu tradicional está enfraquecido, abrindo espaço para o crescimento de partidos populistas e nacionalistas que prometem restaurar a lei e a ordem em meio à instabilidade generalizada.

Fonte: G1 Economia