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Caderno Mercado

Derrota de Trump pode barrar intervencionismo na América Latina

Derrota de Trump pode barrar intervencionismo na América Latina

A expressiva derrota sofrida pelo presidente norte-americano Donald Trump, que resultou na perda do controle da Câmara e do Senado pelos republicanos, tem potencial para conter o ímpeto intervencionista da Casa Branca na América Latina e estimular Washington a buscar um entendimento comercial com o Brasil.

A geopolítica regional de Trump e as ações militares Até o momento, a gestão republicana priorizou a chamada “proeminência” norte-americana na região, buscando assegurar a “dominação” dos EUA no continente para conter o avanço econômico chinês na América Latina e no Caribe.

Tal postura se materializou em episódios como a invasão da Venezuela, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026 e em um posterior acordo petroleiro destinando 21% da produção venezuelana a uma empresa vinculada ao Pentágono, com parte comercializada a preço de custo.

Impacto do novo cenário legislativo nos EUA Para a professora de Relações Internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a ascensão de uma maioria democrata no Legislativo imporá barreiras institucionais a Trump, restringindo tanto a liberação de verbas para operações externas quanto a abertura de inquéritos contra integrantes do governo.

“No âmbito da defesa, isso vai ser muito importante. Eu imagino que o Congresso tende a sustar os gastos desse setor. Na América Latina, isso tende a ser percebido, inclusive, dentro do Escudo das Américas, com talvez menos recursos e menos ênfase a essa política. Portanto, pode vir a representar um freio para interromper essas políticas intervencionistas”, avalia.

Controvérsias do Escudo das Américas e reflexos na Bolívia Implementado no segundo mandato de Trump sob o pretexto de combater cartéis de drogas, o programa Escudo das Américas é frequentemente visto como ferramenta de interferência geopolítica.

Na Bolívia, a iniciativa foi empregada na prisão do procurador-geral Roger Mariaca, sob a alegação de envolvimento com o narcotráfico. A detenção gerou controvérsias por ocorrer enquanto Mariaca investigava Fernando Cerimedo, operador digital alinhado ao movimento trumpista e que prestou assessoria aos presidentes Javier Milei (Argentina) e Rodrigo Paz (Bolívia).

Perspectivas para o comércio bilateral com o Brasil No plano econômico, as sobretaxas impostas por Washington contra produtos brasileiros foram interpretadas por Brasília como manobra político-eleitoral para influizar o pleito de outubro em favor da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires aponta que o revés nas urnas desta terça-feira (3) serve de estímulo para que a administração norte-americana reveja sua postura e busque pactos comerciais.

“Se eles aprenderam algo com a derrota, é que a economia precisa melhorar. Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido”, disse à Agência Brasil.

O pesquisador pontua ainda que o secretário de Estado, Marco Rubio, encarregado da diplomacia do governo Trump, precisará dedicar mais tempo a prestar esclarecimentos a um Congresso agora dominado pelos democratas.

“Eles precisam de uma série de acordos que eles têm interesse no Brasil, em várias áreas, como nas tarifas, terras raras e data centers. Se eles forem racionais, é o momento de fazer as pazes com o governo brasileiro”, disse.

Apesar da perspectiva de distensão, Juliano Machado pondera que a Casa Branca ainda pode tentar fabricar “factóides” externos para tentar desviar o foco da opinião pública de crises internas.

Fonte: Agencia Brasil