Inteligência artificial gera otimismo em chefes e medo em empregados
O avanço da inteligência artificial nas empresas revelou um abismo de percepções entre a alta cúpula e os funcionários da base, dividindo opiniões sobre produtividade, futuro financeiro e segurança no emprego.
O abismo de percepções na economia
Pesquisas recentes indicam que mais de dois terços dos líderes empresariais esperam estar em melhor situação financeira daqui a cinco anos por causa da IA. Em contrapartida, apenas 27% da força de trabalho dos EUA compartilham desse mesmo otimismo, representando uma divergência impressionante de 41 pontos percentuais. Além disso, 73% dos executivos acreditam que a tecnologia transformou significativamente as operações, enquanto 58% dos colaboradores em cargos iniciais e intermediários enxergam o mesmo impacto.
“Temos executivos em salas de alto escalão e funcionários em baias movimentando a mesma economia, mas vivendo realidades completamente diferentes”, disse por e-mail John Gerzema, CEO da Harris Poll. “Há um abismo entre a esperança dos líderes quanto ao que a IA poderia trazer às empresas e a percepção dos funcionários sobre o que ela está tirando deles.”
Falta de transparência e risco de retrocesso
O principal problema é que os CEOs parecem ignorar essa desconexão. Um estudo da BCG revelou que apenas 15% dos líderes temem que sua estratégia com IA abale a confiança dos empregados, ao passo que 40% dos trabalhadores acusam a chefia de falta de transparência sobre os reflexos da automação em suas carreiras.
“Você não conseguirá fazer com que as pessoas de que precisa passem a usá-la de forma mais intensiva”, disse Julia Dhar, líder da área de pessoas e organizações da BCG na América do Norte e uma das autoras do estudo. “E há uma grande probabilidade de haver retrocesso ou regressão por parte de outras pessoas.”
Estratégias de liderança para o diálogo
Para mitigar a desconfiança, líderes corporativos buscam alternativas de aproximação. Hemant Taneja, comandante da General Catalyst, aponta que a comunicação deve ser intensificada diante da ambiguidade atual.
“Quanto maior a ambiguidade, mais é preciso se comunicar”, disse Taneja em entrevista. “Também estou sentindo na pele as dificuldades disso em meu próprio negócio.”
O investidor reforça a importância da sinceridade com as equipes. “É preciso ter a vulnerabilidade de admitir que não temos todas as respostas”, disse Taneja. “Sabemos, em linhas gerais, para onde ir, mas não temos todas as respostas; por isso, não há problema em rever premissas e mudar de ideia.”
Outra tática citada por Julia Dhar envolve abrir espaço para que os funcionários da linha de frente questionem processos corporativos sem medo de julgamentos, fazendo perguntas simples como: “Qual é a coisa mais sem sentido que fazemos nesta empresa?”.
“Mas você oferece às pessoas uma maneira muito fácil de fazer com que sua voz seja ouvida”, disse ela.
O desafio de ouvir a base
Tim Walsh, chefe da área de consultoria da KPMG, relata que busca conversar diretamente com sócios e subordinados para mensurar a recepção da tecnologia, embora admita que a barreira hierárquica dificulte o acesso a essas informações sinceras.
“Preciso entender como eles estão se sentindo, como a tecnologia está sendo recebida e quais são suas preocupações”, disse Walsh em entrevista. “Posso dizer que, no meu nível hierárquico, é difícil obter essas informações.”
Apesar da dificuldade em estabelecer esse canal direto, o Barômetro da Confiança Edelman aponta que a imagem dos CEOs ainda sofre menos rejeição do que outras instituições, como veículos de mídia, ONGs e o governo. Os dados também mostram que os profissionais norte-americanos valorizam líderes dispostos a debater o tema, mesmo sem respostas definitivas.
“As pessoas costumam ser muito realistas quanto à realidade dos negócios, e seus pedidos muitas vezes são bastante modestos”, disse Dhar. “Elas dizem: ‘Eu só espero que os líderes sejam capazes de falar com honestidade e clareza sobre as mudanças que estamos fazendo e as razões por trás delas’.”
Fonte: Folha - Tecnologia