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Caderno Mercado

Inteligência artificial conquista aprovação massiva fora do ocidente

Inteligência artificial conquista aprovação massiva fora do ocidente

O entusiasmo global com a inteligência artificial contrasta fortemente com o ceticismo amplamente divulgado na imprensa ocidental. Enquanto manchetes dos Estados Unidos e da Europa destacam temores e rejeição à tecnologia, dados de uma pesquisa internacional mostram um cenário global de forte apoio e expectativas positivas em relação ao futuro digital.

Visão otimista na Coreia do Sul Em Seul, o vendedor de violinos Bae Oh-do, de 70 anos, lembra do período posterior à Guerra da Coreia, quando recolhia lenha na floresta e usava uma bomba de pedal para conseguir água. “A era do trabalho manual está completamente arraigada em mim”, relata. Para ele, que testemunhou a chegada de tratores, da internet e dos smartphones, a inteligência artificial é bem-vinda. “Não é algo com que os seres humanos devam se preocupar. Esse tipo de coisa é bom”, afirma. “Eles devem continuar desenvolvendo a tecnologia. A humanidade avançou muito até a nossa geração. Não há como saber de que maneira o mundo vai mudar.”

Diferenças entre ocidente e o restante do mundo Essa percepção favorável é compartilhada por quase dois terços dos sul-coreanos, conforme levantamento realizado para a The Economist pela GlobeScan. Nos países em desenvolvimento, o índice de aprovação é ainda mais expressivo: cerca de nove em cada dez cidadãos na Nigéria e no Vietnã acreditam que a tecnologia transformará positivamente a vida pessoal e a humanidade.

Em contraste, nas nações ocidentais o clima é predominantemente sombrio. Pesquisas indicam que, em países como Estados Unidos, Canadá e França, a parcela da população com visão pessimista sobre o impacto da IA supera a dos otimistas. Essa disparidade levanta debates sobre as razões pelas quais o restante do globo abraça a inovação enquanto os países ricos manifestam maiores receios.

Menos riscos e mais oportunidades para trabalhadores Especialistas apontam que trabalhadores de nações em desenvolvimento frequentemente possuem menos a perder em comparação aos profissionais ocidentais. Em grande parte do mundo pobre, o mercado de trabalho é informal e precário, reduzindo o temor de perder um posto corporativo estável. Além disso, em locais onde a educação formal e as instituições enfrentam deficiências, ferramentas digitais ajudam a população a encontrar soluções de forma independente.

“O pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança”, argumenta Payal Arora, autora de “From Pessimism to Promise”, obra que analisa as divergências globais em relação à tecnologia.

Acesso facilitado e novos horizontes Ferramentas acessíveis ou gratuitas, como o ChatGPT da OpenAI, o Gemini do Google, aplicativos chineses e alternativas como o DeepSeek, impulsionaram o uso da tecnologia na África, Índia e outras regiões emergentes. Para analistas, a expansão desafia o controle histórico do conhecimento. Os ocidentais “historicamente monopolizaram o conhecimento e a produção de ideias, mas a IA põe isso em xeque”, afirma Yuen Yuen Ang, da Universidade Johns Hopkins. “Será uma crise apenas para quem perde com essa transformação?”

Fatores demográficos e históricos por trás da adesão Outro elemento que impulsiona o apoio à IA em países como Singapura, Coreia do Sul e Taiwan é a rápida transição demográfica. Com populações envelhecendo e taxas de fecundidade em queda, governos e sociedades esperam que a automação e robôs inteligentes ajudem a suprir a escassez iminente de mão de obra.

Além disso, a memória recente de saltos tecnológicos que transformaram economias pobres em potências em poucas décadas cria um ambiente cultural receptivo à inovação. Na China e na Índia, a rápida adoção de pagamentos digitais e serviços autônomos gerou um histórico positivo de adaptação.

Ceticismo ocidental e discursos de liderança No Ocidente, a desconfiança em relação à inteligência artificial reflete também o desgaste acumulado com redes sociais e grandes empresas de tecnologia, além de certa desconfiança em relação à classe política. Daniel Dobrygowski, autor de “Technology Governance”, destaca que o comportamento das lideranças tecnológicas locais influencia diretamente esse cenário.

Enquanto executivos do Vale do Silício frequentemente alertam para catástrofes, riscos existenciais e desemprego em massa ao promoverem conceitos avançados, líderes e políticos asiáticos adotam uma postura focada na praticidade, nos usos cotidianos e nos benefícios econômicos tangíveis. Na China, embora haja preocupações governamentais com segurança cibernética e estabilidade econômica, o tom predominante na mídia estatal é de incentivo e entusiasmo pelo avanço digital.

Fonte: Folha - Tecnologia