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Caderno Mercado

Inteligência artificial gera inflação e preocupa bancos centrais

Inteligência artificial gera inflação e preocupa bancos centrais

A relação entre o avanço da inteligência artificial e a alta dos preços tornou-se motivo de apreensão para formuladores de políticas econômicas em todo o planeta, levantando o debate sobre se a nova tecnologia pode impulsionar a inflação sem entregar os esperados ganhos de produtividade.

Atualmente, a dinâmica geral dos preços ainda não tem a tecnologia como principal motor. Informações da Capital Economics mostram que a taxa anual em agosto nos principais mercados desenvolvidos estabilizou-se ao redor de 3%, patamar considerado elevado. Desse total, os custos de energia responderam por quase um ponto percentual, impulsionados em parte pela demanda de processamento de dados e, de forma mais significativa, por conflitos geopolíticos.

Pressões pontuais e o mercado de chips Embora existam alguns sinais de pressões mais pontuais sobre os preços relacionadas à IA, eles nem sempre são particularmente fortes. No Reino Unido, por exemplo, os valores de acessórios para equipamentos de processamento de dados e celulares não registraram alta no último ano, apesar da enorme demanda mundial por chips. Philip Lane, economista-chefe do BCE (Banco Central Europeu), apontou recentemente que a inflação na zona do euro foi protegida pelo fato de que os celulares, laptops e carros afetados representavam uma parcela muito pequena dos gastos.

O cenário muda ligeiramente nos Estados Unidos, onde os valores de softwares, acessórios de informática e chips para data centers registraram elevação, embora ainda representem uma fatia restrita do consumo total.

Análise detalhada do impacto econômico No início deste mês, economistas do Goldman Sachs adotaram uma abordagem mais sistemática, somando estimativas dos efeitos da IA sobre diferentes componentes dos gastos nos Estados Unidos, tanto diretos quanto indiretos. Os especialistas identificaram quatro frentes principais: componentes e softwares diretamente relacionados à IA; produtos eletrônicos que disputam esses componentes; eletricidade; e materiais de construção usados na construção de data centers.

O cálculo apontou que as pressões inflacionárias ligadas à tecnologia adicionavam cerca de 0,5 ponto percentual à taxa anual geral. O impacto recuava para aproximadamente 0,3 ponto percentual após a exclusão de distorções estatísticas, revelando um efeito relevante, mas moderado.

O dilema dos banqueiros centrais O grau de preocupação dos banqueiros centrais depende, portanto, da resposta a uma pergunta de trilhões de dólares: a IA realmente proporcionará os ganhos de produtividade esperados? As autoridades monetárias enfrentam o desafio de evitar juros excessivamente altos que possam retardar a adoção de uma tecnologia potencialmente desinflacionária no longo prazo.

Caso a euforia com a produtividade leve empresas e famílias a anteciparem gastos e investimentos, a economia pode sofrer pressões inflacionárias temporárias. O grande risco reside na hipótese de os ganhos esperados não se materializarem, deixando a economia estagnada diante de um cenário persistente de custos elevados.

Fonte: Folha - Tecnologia