Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Meta despenca em Nova York com planos de IA e puxa queda global nas bolsas

Meta despenca em Nova York com planos de IA e puxa queda global nas bolsas

A Meta liderou uma forte onda de vendas de ações de tecnologia nos Estados Unidos nesta quinta-feira (22), depois que seus planos bilionários de gastos reacenderam preocupações sobre a sustentabilidade do boom de infraestrutura de inteligência artificial financiado por dívidas e provocaram uma corrida por títulos do Tesouro americano.

Impacto no mercado acionário As ações da empresa de mídia social de Mark Zuckerberg despencaram 7% após a companhia prever que precisará levantar “centenas de bilhões de dólares” ao longo de vários anos, possivelmente a partir deste outono no hemisfério Norte, para financiar sua aposta em inteligência artificial. A queda reduziu o valor de mercado da Meta em cerca de US$ 124 bilhões (R$ 624,5 bilhões).

O Nasdaq 100, índice concentrado em ações de tecnologia, recuou 2,9%, enquanto o S&P 500, que reúne as principais empresas americanas, caiu 1,2%.

Corrida por segurança e títulos do Tesouro Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos tiveram forte valorização em meio à busca por ativos considerados seguros. O rendimento dos títulos de dez anos caiu 0,16 ponto percentual, para pouco menos de 5%, e o mercado caminhava para seu melhor desempenho diário desde meados de 2024.

“A alta dos títulos do Tesouro hoje não é uma resposta a nenhum dado econômico fundamental divulgado recentemente. Tem tudo a ver com possíveis fissuras na aposta em inteligência artificial”, disse Jon Hill, chefe de estratégia de inflação nos Estados Unidos do Barclays.

Queda em outras gigantes de tecnologia As ações da SpaceX caíram 9,1%, apagando a maior parte dos ganhos registrados no início da semana, após o grupo de foguetes e inteligência artificial de Elon Musk informar que sua receita mais do que dobrou no terceiro trimestre. Os papéis da Tesla recuaram 3,1%.

As ações de fabricantes de chips, que estiveram entre os destaques positivos do ano devido às expectativas de forte demanda pelos componentes que sustentam o avanço da IA, também foram atingidas pela onda de vendas. O índice de semicondutores da Filadélfia caiu quase 7%, e um operador do mercado observou uma intensa venda de ações que haviam acumulado fortes altas.

As ações de tecnologia dos Estados Unidos vêm passando por episódios de volatilidade desde que atingiram um recorde no início de outubro. Investidores questionam se a forte valorização dos papéis ligados à IA e a emissão de grandes volumes de dívida para financiar data centers e chips foram longe demais.

Em documento divulgado na quarta-feira (21) à tarde, junto com seus resultados trimestrais, a Meta alertou para um “ambiente cada vez mais desafiador para a captação de recursos”. Grandes concorrentes, como a Alphabet, estão lançando grandes emissões de dívida, enquanto empresas de IA, entre elas Anthropic e OpenAI, planejam ofertas públicas iniciais de ações de proporções gigantescas após a estreia da SpaceX no mercado.

Operadores têm ampliado suas posições em CDS (credit default swaps), instrumentos que funcionam como proteção contra o risco de calote de títulos de dívida de empresas de tecnologia. O spread dos CDS de cinco anos da Meta subiu quase dez pontos-base, para cerca de 116 pontos-base, o maior nível desde o início das negociações, no ano passado.

Tensão geopolítica e crise na Europa Na quarta-feira (21), o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, disse a investidores, em uma reunião privada, que não via um “problema sistêmico” no boom da inteligência artificial.

As crescentes preocupações com a IA se somaram à inquietação dos investidores com a disparada dos preços do petróleo e a onda de vendas de títulos públicos na França.

O petróleo Brent fechou em alta de 4%, a US$ 113,17 (R$ 570) por barril, e chegou durante o pregão a níveis vistos pela última vez nos primeiros meses da guerra com o Irã. A alta ocorreu após militantes houthis, apoiados pelo Irã, intensificarem os ataques contra a Arábia Saudita.

“O risco de escalada no Oriente Médio voltou ao centro das preocupações dos investidores”, afirmou Van Luu, chefe global de estratégia de soluções da gestora Russell Investments, citando a decisão dos Estados Unidos de ordenar que parte de seu pessoal deixe a Arábia Saudita.

O índice pan-europeu Stoxx 600 caiu 1,1%, enquanto os segmentos mais arriscados do mercado de títulos da região, como o francês, sofreram perdas, com investidores buscando a segurança dos títulos do Tesouro americano.

A queda das bolsas e a corrida por títulos considerados seguros “refletem a crescente aversão ao risco dos operadores”, disse Luu.

A França continuou no centro da onda de vendas no mercado de títulos da zona do euro. O rendimento dos papéis franceses de dez anos, que na quarta-feira (21) ultrapassou 5% pela primeira vez desde 2002, subiu mais 0,07 ponto percentual, para 5,08%.

O aumento dos spreads entre os títulos públicos dos países da zona do euro ampliou as preocupações com as consequências para a economia do bloco. O rendimento adicional dos títulos franceses de dez anos em relação aos Bunds alemães, uma medida importante da apreensão dos investidores, superou 1,7 ponto percentual, o maior nível desde o pico registrado em 2011, durante a crise da dívida da zona do euro.

Os spreads de outros países do bloco, acompanhados de perto pelo BCE (Banco Central Europeu) em meio aos temores de uma crise da dívida pública, também aumentaram. O da Itália chegou a 1,2 ponto percentual, enquanto o da Bélgica subiu para 1,1 ponto, atingindo o maior nível desde 2012.

Perspectivas para os mercados globais Os mercados de títulos franceses e italianos haviam entrado em uma “espiral de queda”, afirmou Khanna, à medida que operadores com posições altamente alavancadas abandonavam seus investimentos e o mercado apostava que uma intervenção de apoio do BCE ainda estava distante.

“Há um reconhecimento geracional de que estamos muito longe de acionar uma válvula de segurança”, acrescentou.

Jens Eisenschmidt, ex-integrante do BCE e atualmente economista para a zona do euro no Morgan Stanley, sugeriu que uma pausa temporária no chamado programa de aperto quantitativo do banco central —destinado a reduzir seu balanço patrimonial— poderia “aliviar parte da pressão sobre a alta dos rendimentos de longo prazo em geral”. A medida significaria que o BCE voltaria a reinvestir os recursos obtidos com títulos que chegam ao vencimento.

Eisenschmidt ressaltou, porém, que a alta dos rendimentos franceses enquanto os alemães caíam era “típica de um ambiente de aversão ao risco” e refletia preocupações “claramente vinculadas a um único país”.

Fonte: Folha - Mercado