El Niño derruba mais de 290 torres de energia no Brasil
Mais de 290 torres de transmissão de energia foram derrubadas em território brasileiro desde o final de julho em decorrência de temporais associados ao fenômeno climático El Niño, conforme dados divulgados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Impacto das tempestades extremas
Segundo Márcio Rea, diretor-geral do ONS, as projeções meteorológicas apontam para um agravamento das tempestades nos próximos meses. Contudo, há margem limitada para evitar novas quedas, visto que projetar estruturas capazes de suportar as rajadas recentes exigiria investimentos excessivamente elevados.
“Antigamente, com uma chuva forte, você tinha vento de 90 a 100 quilômetros por hora. Hoje chega a 250 km/h. Então as torres não são preparadas”, afirmou Rea durante um evento no Rio de Janeiro.
Valter Cardeal, diretor de Operação do ONS, detalhou que o balanço inclui 191 torres de linhas de 230 kV e 500 kV que vieram abaixo entre 26 de julho e uma quarta-feira recente (21). O levantamento abrange ainda mais de cem estruturas de 138 kV.
Regiões afetadas e eventos extremos
O diretor-geral do órgão explicou que os danos se concentraram principalmente na região Sul, com episódios de menor proporção no Nordeste. Ele comparou o fenômeno a correntes de ar descendentes em sentidos contrários que colidem próximas à superfície. “É que nem uma explosão. Acaba até torcendo as torres.”
Um dos episódios mais marcantes aconteceu no sul do Rio Grande do Sul em 6 de agosto, quando um ciclone extratropical atingiu a linha de alta tensão responsável pelo abastecimento de Santa Vitória do Palmar e Chuí, provocando a queda de duas estruturas na Lagoa Mirim.
Para restabelecer o serviço, mais de 60 trabalhadores foram mobilizados pelas companhias da área. De acordo com a CEEE Equatorial, o temporal afetou 34 dos 72 municípios sob sua concessão, registrando rajadas de vento que alcançaram 132 quilômetros por hora.
Custo e resiliência do sistema
Questionado sobre a possibilidade de reforçar a arquitetura das estruturas, Rea relatou ter consultado fabricantes do setor. A resposta técnica indicou a necessidade de utilizar uma quantidade de aço nove vezes maior, o que tornaria os custos inviáveis financeiramente. “Não é por aí o caminho”, pontuou.
Apesar dos danos físicos à rede, a avaliação oficial é de que a infraestrutura elétrica demonstrou solidez. “O sistema é resiliente, o corte de carga foi muito pequeno, eu diria insignificante”, declarou Cardeal. O operador tem repassado alertas antecipados de tempestades às empresas concessionárias para manter equipes de prontidão.
Cenário positivo para as hidrelétricas
Em contrapartida aos estragos causados pelos temporais, o volume de chuvas trouxe alívio para os reservatórios das usinas hidrelétricas no início da estação chuvosa. Informações do Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que o Sistema Interligado Nacional (SIN) encerrou setembro com 61% da capacidade preenchida, superando os 56% registrados no mesmo período do ano anterior.
As projeções do ONS indicam que o armazenamento nacional deve alcançar 56,7% até o final de outubro. O destaque fica com a região Sul, onde a expectativa é de atingir 88,2% da capacidade, impulsionada por um volume de afluência que registra 228% da média histórica neste mês.
Com esse panorama hídrico favorável, o diretor-geral avalia que a necessidade de acionar termelétricas — que produzem energia a um custo mais elevado — deve ser descartada, limitando-se a momentos pontuais de pico no consumo. “A caixa d’água está cheia”, concluiu.
Fonte: Folha - Mercado