Destruição de oliveiras faz produção de azeite despencar em Gaza
A tradicional temporada de colheita de azeitonas na Faixa de Gaza enfrenta um cenário devastador. Historicamente considerado a espinha dorsal da agricultura local e um refúgio natural em meio às densas construções da região, o setor foi quase totalmente dizimado por tratores militares e restrições de circulação territorial, reduzindo drasticamente a fabricação do alimento básico para as famílias palestinas.
Queda drástica na colheita e disparada nos preços
Dados de autoridades agrícolas do enclave revelam a extensão dos danos: das cerca de 2 milhões de oliveiras existentes antes dos confrontos, restam aproximadamente 150 mil árvores produtivas. Essa devastação provocou uma retração sem precedentes nos números da safra atual.
A colheita esperada para este ciclo é de 5 mil toneladas de azeitonas, volume distante das 40 mil toneladas registradas habitualmente. Como reflexo direto, a extração de azeite de oliva deve render apenas 700 toneladas, contra as 5 mil toneladas processadas em períodos regulares.
O impacto chegou rápido aos mercados consumidores, que costumavam exibir grande abundância nesta época. Agora, a oferta escassa fez as cotações dispararem. Um barril de 16 litros chega a ser negociado por quase US$ 500, o triplo do valor de mercado pré-guerra. O consumidor Imad al-Ajrami, de 33 anos, relata em Deir al-Balah que a quantia cobrada tornou-se inacessível para a maior parte da população.
A infraestrutura de processamento também entrou em colapso. Das 40 instalações de prensagem que funcionavam no enclave, restam somente sete em operação, ainda assim com ritmo reduzido. Responsável por um maquinário ativo em Deir al-Balah, Fawaz Zidan descreve o cenário ao atender moradores que aguardavam com recipientes plásticos:
“Comparado aos anos anteriores à guerra, é como se não restasse nada. Não há azeitonas; tudo foi arrasado por tratores, as azeitonas desapareceram”, disse ele à Reuters.
Terras bloqueadas e pomares devastados
Na área central do território, o agricultor Haidar Abu Middain, de 60 anos, personifica a perda sofrida pelos produtores rurais. A propriedade mantida por sua família cobria 90 hectares (900 dunums), gerando anualmente 1.500 toneladas do fruto, destinadas tanto à venda direta quanto ao enchimento de 900 tambores de azeite.
Atualmente, o acesso à metade dessa fazenda está impedido pela presença de militares israelenses ao longo da chamada “linha amarela”, barreira que isola dois terços da Faixa de Gaza. O trecho remanescente sofreu grande destruição por maquinário pesado, preservando apenas entre 20 e 30 árvores. O rendimento previsto para o lote não deve passar de dois tambores, quantia insuficiente até para o consumo doméstico dos parentes.
“Antes da guerra, a colheita era uma bênção; era o suficiente para garantir o sustento de nossas famílias”, disse ele à Reuters. “A produção daqui costumava ser suficiente para abastecer toda a região central, tanto com azeite quanto com azeitonas.”
Tradição e luta pela sobrevivência em Deir al-Balah
Em bolsões preservados, como Deir al-Balah — setor central demarcado como área segura pelas tropas de Israel e poupado de incursões diretas —, trabalhadores rurais tentam manter a rotina agrícola viva, mesmo sob severas limitações econômicas.
No local, a família de Khalil Mansi reuniu crianças descalças sobre escadas e adultos estendendo tecidos brancos sob as copas para recolher os frutos maduros. O trabalho no campo, entretanto, já não oferece a estabilidade de outrora.
O trabalhador Ahmed Khader, de 38 anos, recorda que as colheitas passadas garantiam contratos de até três meses contínuos de remuneração. Na atual temporada, a sobrevivência depende de contratações pontuais de diárias avulsas.
“Mas ainda precisamos garantir o sustento dos nossos filhos, colocar algo para eles comerem; queremos tentar ganhar o nosso pão de cada dia”, afirmou.
Além de alimentar a população local e fornecer excedentes que antes eram negociados com o mercado externo, o olival carrega forte peso identitário na cultura palestina, tornando a perda dos pomares um baque socioeconômico e cultural duradouro.
Fonte: Mundo