Como a geração Z usa as redes para liderar protestos pelo mundo
Uma nova onda de agitações populares ganha força em diferentes continentes sob a liderança direta de pessoas nascidas entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010. Conectados digitalmente, os integrantes da geração Z têm transformado plataformas digitais em palanques globais, impulsionando atos em massa contra a precarização dos serviços públicos, o custo de vida elevado e a corrupção institucional.
Conexão instantânea e rejeição ao sistema
Diferente de mobilizações de épocas passadas, a adesão aos atos atuais não depende de filiação a legendas tradicionais nem segue uma única orientação partidária. Os protestos atingem lideranças de perfis divergentes, desde a administração socialista na Albânia até gestões de direita, como no Chile.
De acordo com Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), redes como TikTok, Instagram, WhatsApp e Telegram operam como aceleradores em tempo real. Segundo ela, as demandas locais rapidamente encontram eco em quem vivencia dificuldades parecidas em outros cantos do planeta.
“Questões orçamentárias na educação de países como França, Chile e Argentina, ou a crise da moradia na Espanha e os escândalos nos vestibulares na Índia, geram uma identificação geracional imediata”, explica Bressan.
Para a especialista, a contestação tem como alvo comum as estruturas de poder: “O traço comum é a rejeição à precarização e aos privilégios de castas políticas, independentemente do espectro ideológico formal do governante”, diz Bressan. Ela acrescenta que, diante do aperto econômico, certos referenciais ganham força: “Então, diante de aluguéis inacessíveis, cortes na educação e na previdência, os símbolos da esquerda radical voltam a ser adotados pela juventude como a forma mais direta de rejeitar o neoliberalismo e o mercado regulamentado”, explica.
Educação e violência policial na Europa
Na França, uma série de paralisações iniciadas em meados de setembro tomou proporções nacionais. Centenas de milhares de estudantes, com apoio de professores e famílias, ocuparam ruas para reivindicar aportes no ensino público e suprimento do déficit docente. Um único dia de protestos reuniu mais de 160 mil participantes.
A tensão escalou diante de denúncias de truculência policial, amplamente documentadas em celulares e compartilhadas online pelos próprios manifestantes. Investigações foram abertas sobre excessos da repressão após milhares de detenções de menores. Movimento similar de insatisfação juvenil também sacudiu a Espanha, motivado pela crise habitacional e por episódios emblemáticos de despejo.
Humor e revolta na Ásia: o caso da Índia
A criatividade e a ironia tornaram-se táticas estratégicas da juventude. Na Índia, vestibulandos e concurseiros indignados com fraudes em exames e corrupção criaram a Cockroach Janta Party. Resgatando termos pejorativos direcionados a desempregados, o grupo usou fantasias e sátiras visuais de baratas para viralizar denúncias, culminando na queda do ministro da Educação local.
As ações indianas prosseguiram em Nova Délhi e outras capitais com manifestações contra revisões em listas de votação que excluíram dezenas de milhões de cidadãos, gerando denúncias de favorecimento político ao primeiro-ministro Narendra Modi.
Tensões do Nepal à América Latina
A velocidade de convocação das redes também provocou rupturas institucionais severas em 2025 no Nepal. Após tentativas governamentais de censurar canais digitais, dezenas de milhares ocuparam Katmandu, enfrentando uma repressão violenta que deixou dezenas de mortos e resultou na queda do gabinete de K. P. Sharma Oli, abrindo caminho para novas forças políticas.
No Chile, assembleias estudantis reagiram a propostas orçamentárias com passeatas maciças sob a bandeira de manutenção dos recursos da educação, aliando-se a causas de povos originários e mantendo viva a memória de levantes sociais recentes.
Já na Albânia, protestos estudantis que exigiam melhorias universitárias escalaram para confrontos abertos e ataques a edifícios governamentais. O foco das críticas recaiu sobre a corrupção e projetos imobiliários de alto padrão em áreas costeiras preservadas, envolvendo Jared Kushner, genro de Donald Trump.
As transformações no modo de protestar
Embora a juventude historicamente protagonize revoltas — como em Maio de 1968 ou na resistência contra ditaduras —, as dinâmicas mudaram radicalmente. O professor de ciências sociais Luciano Gomes, do Centro Universitário Arnaldo Janssen, aponta que o passado exigia maior vinculação com grêmios, sindicatos e estruturas formais.
“Embora esses movimentos também fossem heterogêneos, havia maior presença de estruturas organizativas tradicionais e de projetos políticos explicitamente identificados com determinadas correntes, como o socialismo, o comunismo, o liberalismo e outras formas de pensamento político”, diz.
Gomes destaca que a velocidade da internet transformou o alcance e o impacto dos atos: “Nas gerações anteriores, a circulação das informações dependia mais da imprensa, dos panfletos, das reuniões presenciais e das redes de militância”, afirma o especialista. Contudo, essa mesma instantaneidade impõe entraves na consolidação de propostas a longo prazo. Segundo ele: “A internet facilita a mobilização, mas também favorece a circulação de desinformação, a polarização e a disseminação de conteúdos que podem estimular confrontos”, ressalva.
Fonte: Mundo