Deputados de SP com 18 milhões de seguidores usam estratégias distintas
Os seis candidatos a deputado estadual e federal mais votados de São Paulo, que ultrapassaram a marca de 500 mil votos nas eleições deste ano, chegaram às urnas com uma base conjunta de mais de 18 milhões de seguidores no Instagram. Nomes como Lucas Pavanato, Erika Hilton, Eduarda Campopiano, Eduardo Suplicy, Sâmia Bomfim e Kim Kataguiri acumulam essa audiência digital, mas as prestações de contas enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral revelam abordagens completamente diferentes na alocação de recursos financeiros durante o período de campanha.
Investimento pesado na internet
Enquanto alguns parlamentares concentraram os investimentos nas plataformas online, outros optaram por manter volumes expressivos de gastos tradicionais com material gráfico. Lucas Pavanato, que liderou a votação geral com 3.038.438 votos, declarou despesas totais de R$ 2,7 milhões. Desse montante, cerca de R$ 1,35 milhão — exatamente 50% do orçamento — foi direcionado para impulsionamento, comunicação digital e produção de conteúdo, além de R$ 352.500 investidos em impressos. O político do PL acumulava aproximadamente 5,5 milhões de seguidores no Instagram antes do pleito.
Segunda colocada em votação geral e parceira de palanque em uma campanha conjunta, Eduarda Campopiano alcançou 1.956.238 votos e destinou 61,1% de seus R$ 654 mil em despesas para a comunicação digital, somando cerca de R$ 400 mil. A deputada estadual eleita contava com cerca de 2,5 milhões de seguidores. Para especialistas, essa presença não surge do acaso, mas reflete uma mudança estrutural na sociedade.
“As redes sociais não se consolidaram como um dos principais espaços na disputa eleitoral. Isso se configura na nossa vida. Então, as redes sociais são um espaço importante da nossa sociabilidade”, afirma a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de Sociologia e Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
A especialista destaca que esse cenário decorre de um processo de digitalização profunda que ganhou força desde os anos 2000 e 2010, acelerando-se ainda mais durante o período da pandemia.
Audiências consolidadas e foco em impressos
Apesar do peso do ambiente virtual, a proporção de gastos com internet não se repetiu da mesma forma para todos os grandes influenciadores das urnas. Erika Hilton conquistou 1.596.383 votos para deputada federal com 5,3 milhões de seguidores no Instagram — superando a audiência de Pavanato e dobrando a de Campopiano. Contudo, dos R$ 1,63 milhão declarados em despesas, apenas R$ 188 mil (11,5%) foram para comunicação digital, enquanto cerca de R$ 453 mil (27,8%) cobriram custos com material gráfico.
Caminho semelhante seguiu Sâmia Bomfim, que obteve 583.107 votos com um total de R$ 1,97 milhão em gastos. A parlamentar destinou 20% do orçamento ao digital, mas aplicou cerca de 39% (R$ 775 mil) em impressos.
Para Tathiana Chicarino, o número bruto de seguidores não determina o sucesso eleitoral de forma isolada, mas atua como um valioso capital político digital.
“Ter milhões de seguidores é um ativo? Claro que é, né? E aí a gente está falando de capital digital. Um capital político digital. Mas ter milhões de seguidores não significa que você vai ter milhões de votos”, diz. A cientista ressalta que o engajamento e a circulação orgânica gerada pelos usuários importam mais do que a contagem de perfis conectados, pois até mesmo críticas ajudam a impulsionar o alcance algorítmico do candidato.
Arquitetura das plataformas e comportamento do eleitor
A dinâmica da comunicação política contemporânea também é moldada pela estrutura tecnológica das próprias redes sociais. Paulo Faltay, professor de Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do laboratório Estopim, aponta que as ferramentas determinam o fluxo das informações.
“As diferentes arquiteturas das plataformas, as métricas, os valores, o que é valorizado estão ali gerando que tipo de conteúdo vai ter mais visibilidade, que tipo de conteúdo vai ter mais circulação”, pontua.
Com isso, o público deixa de ser um mero receptor de mensagens e passa a atuar ativamente na difusão da imagem do político.
“O grande feito de ter milhões de seguidores é justamente poder contar com essa audiência que não é apenas destinatário da comunicação, mas passa a trabalhar na própria produção de visibilidade do candidato”, reforça Faltay, destacando que o cenário resulta em uma experiência fragmentada, onde cada usuário consome um universo informacional personalizado.
Outros perfis e disparidade financeira
O levantamento também abrangeu campanhas com custos e estratégias variadas, como a de Kim Kataguiri, que contabilizou 520.071 votos com despesas de R$ 469 mil, dividindo 25% do orçamento tanto para o digital quanto para material gráfico. O veterano Eduardo Suplicy, aos 85 anos, obteve 654.627 votos declarando R$ 97,8 mil em gastos, sendo 31% direcionados à internet.
Para o professor Paulo Faltay, a disputa revela que a eficiência eleitoral está atrelada à capacidade de adaptação às métricas tecnológicas e ao potencial financeiro disponível.
“Não é simplesmente quem pode se comunicar melhor, mas é quem se adapta melhor às próprias métricas e arquitetura das plataformas e quem tem mais poder econômico para gastar nelas também”, conclui.
Fonte: G1 - Política