Reviravoltas políticas: as mudanças de discurso de Lula e Flávio Bolsonaro
As estratégias e os posicionamentos dos principais candidatos à Presidência da República passaram por transformações marcantes em temas que vão desde auxílios sociais até a segurança pública. Essas alterações de rumo ficam evidentes ao analisar entrevistas, publicações em redes sociais, debates e decisões administrativas adotadas ao longo de suas trajetórias na política brasileira, ganhando ainda mais destaque durante a corrida eleitoral de 2026.
A guinada nas pautas sociais e penais Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) abandonou críticas ferrenhas feitas no passado para abraçar o Bolsa Família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também revisou conceitos históricos, passando a apoiar a punição mais severa para adolescentes em situações específicas.
O histórico de Flávio Bolsonaro com o Bolsa Família Entre 2011 e 2013, o parlamentar utilizava as redes sociais para desqualificar o programa de transferência de renda, classificando-o como ferramenta de dependência e clientelismo eleitoral. Em agosto de 2011, ao comentar um reajuste, escreveu: “Financiamento púb de campanha do pt!”. Meses depois, em junho de 2013, afirmou que “o PT perpetua a pobreza com o bolsa-farelo”.
As críticas prosseguiram em 2014, quando ironizou os beneficiários em uma postagem: “#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”.
No entanto, no cenário da disputa presidencial de 2026, o discurso mudou radicalmente para garantir a permanência da assistência financeira às famílias carentes.
Em junho, durante um evento em São Paulo, o senador tratou a iniciativa como um direito adquirido intocável. “Esse programa virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda que têm dificuldade alimentar”, afirmou o senador, em 15 de junho de 2026, durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo.
Posteriormente, a equipe econômica do candidato formulou uma regra de transição de dois anos para permitir que trabalhadores recém-empregados continuassem recebendo parte do auxílio. Para tranquilizar o eleitorado, o próprio político gravou um pronunciamento em vídeo. “É óbvio que isso não vai acontecer. É óbvio que isso é mentira. Você que recebe o Bolsa Família fica tranquilo, o seu benefício está garantido, porque eu vou cuidar de você”, afirmou.
A mudança de Lula sobre a maioridade penal Por sua vez, o atual chefe do Executivo federal alterou uma bandeira histórica ao concordar com a responsabilização criminal a partir dos 16 anos em casos de crimes hediondos, rompendo com uma oposição que manteve inalterada por décadas.
Anteriormente, diante de episódios de grande repercussão pública, o petista rechaçava qualquer tentativa de alteração na idade penal. Em 2007, após um crime violento no Rio de Janeiro, argumentou que a medida era ineficua. “Isso não resolve o problema”, declarou, durante evento em Salvador.
A rejeição à ideia se repetiu em maio de 2015 durante um ato sindical em São Paulo, quando criticou parlamentares e setores conservadores. “Parte da elite conservadora acha que vai resolver o problema colocando moleque de 15 anos na cadeia”, afirmou.
A reviravolta ocorreu em outubro de 2026, quando o candidato defendeu a medida durante sabatina televisiva. “Todo e andante crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade”, declarou. Dias depois, em sabatina no SBT, admitiu publicamente a alteração de seu ponto de vista. “Temos que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós somos convencidos de que é importante”, afirmou.
Debates sobre a jornada de trabalho e a tributação de importados Além das pautas sociais e de segurança, o período eleitoral também evidenciou recuos e adaptações em pautas econômicas e trabalhistas defendidas por ambos os lados.
No caso do senador do PL, a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 passou por um alinhamento com o desejo popular na reta final da disputa, após o avanço de propostas alternativas de flexibilização de contratos e remuneração por hora. Em entrevista no fim de agosto, o candidato havia ponderado: “A gente vai defender a liberdade de você, trabalhador, escolher qual é a sua escala de trabalho”.
Contudo, após contato direto com o eleitorado nas ruas, o posicionamento mudou. No debate da Band em outubro, ele confirmou o voto favorável ao fim da jornada de seis dias. “Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar, eu sou uma pessoa que se for convencida posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros”, afirmou. “Eu rodei esse Brasil inteiro, eu ouvi você, trabalhador, eu ouvi de você que queria ter esse direito a mais um dia de folga, por isso eu votei a favor”, declarou.
Por fim, a gestão petista também modificou a postura em relação à taxação de compras internacionais de até 50 dólares, a chamada “taxa das blusinhas”. Inicialmente implementada em 2024 para resguardar a indústria interna, a cobrança gerou desgaste político e levou o governo a recuar em 2026. Em março de 2023, o presidente justificava a necessidade de frear o avanço de mercadorias estrangeiras isentas. “Assim não dá para viver”, afirmou.
Meses após a sanção e o impacto negativo nas urnas e em pesquisas de opinião, a administração federal enviou medidas para zerar a alíquota. Em abril de 2026, o chefe do Executivo ponderou sobre o erro estratégico. “Eu achava desnecessária a taxa das blusinhas. São compras muito pequenas, as pessoas de baixo poder aquisitivo é que compravam aquilo. Sei do prejuízo que isso trouxe para nós”, declarou. Em agosto, durante articulações com líderes do Congresso, reforçou a justificativa humanitária e econômica do recuo. “Para o bem das pessoas que gostam de comprar coisinha pouca por US$ 50”, comentou, reiterando dias depois: “Porque é uma questão de justiça”.
Fonte: G1 - Política