Lula muda discurso econômico e campanha mira propostas fiscais de Flávio
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja adotar uma nova postura em sua campanha eleitoral, passando a enfatizar a defesa do equilíbrio das contas públicas. O objetivo central é sinalizar ao mercado financeiro e aos empresários que uma eventual nova gestão buscará criar um ambiente econômico favorável à queda das taxas de juros no país.
Reação do mercado e pressões econômicas A política fiscal adotada pelo governo tem sido alvo constante de críticas por parte de economistas e representantes do setor produtivo. O principal temor reside no aumento das despesas e na utilização de fundos para impulsionar empréstimos e subsídios, fatores apontados como impulsionadores da dívida pública. Essa percepção de risco mantém os juros em patamares elevados, gerando grande expectativa no setor empresarial por mudanças.
O desgaste na relação com o mercado se aprofundou após uma declaração polêmica dada pelo petista em 12 de setembro, em Curitiba (PR). Na ocasião, Lula afirmou que, para o governo conseguir investir, “é preciso parar com essa babaquice de fazer superávit, fazer superávit, de ter controle fiscal”. A fala gerou forte repercussão negativa entre investidores, que passaram a enxergar maiores chances de ajuste fiscal sob a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário na disputa.
Tentativa de virada com a ajuda da equipe econômica Diante do cenário desfavorável no primeiro turno, aliados do presidente avaliam que a vocalização desses princípios econômicos diretamente pelo chefe do Executivo tornou-se imprescindível. Embora ministros como Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento) já manifestassem disposição para aprovar medidas de ajuste, agentes financeiros cobravam um posicionamento público do próprio presidente.
Para tentar amenizar o impacto da declaração sobre o superávit, Lula já havia ensaiado uma mudança de tom em um jantar com empresários realizado em 25 de setembro. No evento, ele declarou que “estabilidade fiscal é uma coisa obrigatória”. “Essa questão da estabilidade fiscal, da estabilidade econômica é uma obrigação nossa, não é nem mérito”, afirmou.
Em pronunciamentos recentes, o presidente também destacou o histórico de sua gestão anterior. “É importante lembrar que, nos oito anos que eu fui presidente, nós fizemos superávit primário todos os oito anos. Eu fui o único presidente do G-20 que fez superávit primário. Foi no meu governo que nós conquistamos dois investment grade [selo de bom pagador conferido por agências de classificação de risco], coisa que o Brasil nunca tinha conseguido”, pontuou, ressaltando ainda a importância de “fazer a economia crescer” para reduzir a dívida pública.
Confronto político e críticas ao adversário Em paralelo à mudança de tom na economia, a coordenação da campanha decidiu intensificar os ataques nas redes sociais para expor supostas inconsistências nas propostas fiscais de Flávio Bolsonaro. Ministros da atual gestão têm questionado a viabilidade e o impacto social das medidas ventiladas pela oposição, como o corte de despesas públicas.
A ministra Esther Dweck (Gestão e Inovação em Serviços Públicos) utilizou as redes sociais para questionar o plano do adversário. “Anunciar o tamanho da tesoura é fácil. O que precisa ser explicado é onde a tesoura vai passar e o que vai mudar na vida das brasileiras e dos brasileiros, na vida de quem depende de serviços públicos. Cadê a lista da tesoura?”, afirmou.
O próprio Lula também criticou duramente os planos de ajuste avaliados pelo candidato bolsonarista, que preveem mudanças na correção de benefícios previdenciários e nos pisos da saúde e da educação para gerar economia bilionária. “Quando ele fala em cortar R$ 200 bilhões, você sabe do que eles vão cortar? Vão cortar no Pé-de-Meia, no Farmácia Popular, no Minha Casa Minha Vida, Merenda Escolar, no Gás do Povo, não vão dar aumento de salário mínimo para os trabalhadores acima da inflação. E não vão dar aumento de salário mínimo para os aposentados”, argumentou o petista em vídeo divulgado na internet.
Foco em três frentes até o final da eleição Para os estrategistas da campanha governista, a economia faz parte de um tripé de temas essenciais que devem dominar os debates até o dia da votação, marcada para 25 de outubro. Os outros dois pilares considerados estratégicos são a segurança pública e o combate à corrupção.
Na segurança, o presidente incorporou um discurso mais enérgico para rivalizar com a pauta tradicional da direita. “Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão. É esse o nosso lema daqui para frente”, declarou Lula. Já no combate à corrupção, a recomendação dos conselheiros é afastar a imagem do governo de escândalos recentes e apresentar propostas concretas, como a limitação de emendas parlamentares e o cerco a práticas de advocacia administrativa, buscando responder aos anseios do eleitorado mais crítico.
Fonte: Folha - Mercado