Liquidante do Master cobra imóveis de R$ 843 mi nos EUA
A EFB Regimes Especiais de Empresas, administradora judicial responsável pela liquidação do Banco Master, ingressou com uma ação no Tribunal de Falências do Sul da Flórida para tentar reaver três propriedades de altíssimo padrão nos Estados Unidos. Avaliados em mais de US$ 168 milhões (cerca de R$ 843 milhões na cotação atual), os imóveis eram utilizados como moradia por Daniel Vorcaro e teriam sido adquiridos com dinheiro desviado da instituição financeira.
Patrimônio em áreas nobres e compras sem financiamento
O processo não mira diretamente o ex-banqueiro, mas sim as empresas norte-americanas Clear River Properties e Goldbeach Properties, sediadas no estado de Delaware e registradas formalmente como titulares das residências.
De acordo com os autos judiciais, as operações imobiliárias envolveram transações milionárias quitadas integralmente à vista:
- Aspen (Colorado): A Clear River desembolsou US$ 77 milhões (R$ 386 milhões) em abril de 2024 para arrematar um imóvel na Owl Creek Ranch Road.
- Miami (Flórida): Em janeiro de 2025, a Goldbeach adquiriu uma mansão voltada para a baía na Sabal Palm Road por US$ 85,2 milhões (R$ 427 milhões). No mês subsequente, comprou outra casa na mesma rua, do lado oposto, por US$ 6,9 milhões (R$ 34,6 milhões).
A engrenagem internacional de circulação do dinheiro
Os documentos anexados ao processo apontam que o capital saiu do Master e percorreu uma complexa malha de empresas e fundos de investimento no Brasil, nas Bahamas e nas Ilhas Cayman. O destino intermediário foi o Mosaic Short Duration Fund, estrutura sediada nas Bahamas que teria recebido mais de US$ 430 milhões entre fevereiro de 2023 e outubro de 2025.
O rastreamento identificou múltiplos caminhos para escoar os valores:
- Canal via OGP e Entre: O Master alocou recursos no Liquidity Strategies Fund (Bahamas), totalizando US$ 187,5 milhões. Desse montante, US$ 112,8 milhões rumaram para o OGP LatAm Investment e seguiram para a Entre Investments and Arbitrage, antes de aportarem no Mosaic. Ambas as firmas pertencem a Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, apontado na ação como operador ligado a Vorcaro e que formalizou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR).
- Braço nacional da Entre: Remessas também passaram pela Entre Investimentos e Participações em território brasileiro antes de chegarem ao exterior. O grupo controlava a Entrepay, empresa liquidada pelo Banco Central e citada por transferir US$ 12,3 milhões ao fundo norte-americano Havengate para financiar o filme “Dark Horse”.
- Fundos no Caribe: Outra rota envolveu o Jaguar Multimarket Fund Ltd. (Cayman) e o Phoenix Multimarket Fund (Bahamas), ligados a Benjamin Botelho de Almeida (da Sefer Investimentos), pelos quais transitaram US$ 17 milhões no início de 2024.
Contrato simulado e blindagem societária
Para injetar o dinheiro na compra dos imóveis, foi firmado um suposto contrato de financiamento de até US$ 350 milhões entre o fundo das Bahamas e o Mosaic Group, controlador da Clear River e da Goldbeach. O documento foi assinado em 9 de abril de 2024, exatamente dois dias antes da conclusão da transação em Aspen e na mesma data em que a entidade recebeu US$ 76 milhões.
A administração judicial afirma que o empréstimo era fraudulento, já que previa carência total de pagamentos até abril de 2031, juros anuais de 4% que jamais foram cobrados e inadimplência recorrente sem qualquer sanção executada.
Consta ainda na petição que Vorcaro chegou a firmar o contrato de compra da casa de Aspen em seu próprio nome em março de 2024, repassando-o em seguida para a Clear River. O executivo mantinha contratos de aluguel de dez anos com opção de compra para ter exclusividade de uso, mas nunca realizou qualquer pagamento locatício. Adicionalmente, Vorcaro utilizava um cartão de crédito pessoal cedido por um dirigente da Accuvest Global Advisors, cujas faturas superavam US$ 100 mil mensais.
Executivos da gestora Mosaic Financial, como o presidente Brad Jensen e a diretora Lori Webb, atuaram na constituição das companhias norte-americanas por meio da Kodiak Trust Company. Webb chegou a solicitar formalmente a remoção do nome de Vorcaro das holdings controladoras, substituindo-o pelo Fortress Legacy Trust para ocultar o vínculo direto do banqueiro.
Repasses pós-liquidação e pedidos à Justiça
As transferências não cessaram com a liquidação do Banco Central, deflagrada em 18 de novembro de 2025. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, mais US$ 37,5 milhões saíram de contas no Bank of New York Mellon (BNY Mellon) para as duas corporações. Inclusive, dois repasses de US$ 5,5 milhões ocorreram em 11 e 23 de março de 2026, logo após Vorcaro sofrer sua segunda prisão.
Com obras e despesas adicionais, a Clear River recebeu US$ 107 milhões e a Goldbeach outros US$ 120,5 milhões. O liquidante requereu que a corte norte-americana declare os bens como patrimônio da massa falida do banco ou determine a restituição de US$ 77 milhões pela Clear River e US$ 92,5 milhões pela Goldbeach, além de exigir a nomeação de um interventor judicial e a proibição imediata de venda dos imóveis.
Fonte: Folha - Mercado