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Caderno Mercado

Indústria de motocicletas no Brasil dispara com alta de entregas

Indústria de motocicletas no Brasil dispara com alta de entregas

O mercado nacional de motocicletas vive um momento de forte aceleração. A projeção para 2026 aponta a comercialização de 2,35 milhões de unidades no país, superando o recorde anterior registrado em 2015, quando 2,19 milhões de veículos foram emplacados.

Crescimento histórico e produção em Manaus Antes disso, o ápice de vendas havia ocorrido em 2011, com 1,9 milhão de unidades comercializadas. A produção esperada para o período é de 2,1 milhões de motocicletas, repetindo os patamares de 2008 e 2011, conforme dados divulgados pela Abraciclo.

O avanço é impulsionado principalmente pela expansão dos serviços de entrega por aplicativos e de mobilidade urbana, que abriram novas frentes de trabalho. A baixa burocracia no financiamento — onde os consórcios respondem por um terço das vendas —, somada ao encarecimento dos automóveis populares, cujos modelos básicos ultrapassam R$ 70 mil, impulsionou a presença das motos nas ruas.

Investimentos bilionários e liderança de mercado Na contramão de setores que apontam perda de competitividade, o segmento de duas rodas atrai aportes expressivos. A Honda anunciou um investimento de R$ 3,3 bilhões para ampliar sua capacidade produtiva na fábrica de Manaus, passando de 1,6 milhão para 2,3 milhões de unidades anuais até 2029, além de gerar 2 mil novos postos de trabalho.

De acordo com a Fenabrave, a Honda lidera o mercado com 65,6% das vendas entre janeiro e outubro, seguida pela Yamaha com 13,8%. Na sequência aparecem marcas como a chinesa Shineray, com 6%, e a brasileira Mottu, com 4,8%.

“A motocicleta é um veículo acessível e que proporciona economia de combustível, além de ter um custo de manutenção baixo”, diz Sergio Oliveira, diretor-executivo da Abraciclo. “Alguns modelos na faixa de 110 cc (cilindradas) e 125 cc são vendidos a partir de R$ 11 mil. E as motos na faixa de 150 cc e 160 cc, que são as mais adquiridas pelo consumidor, estão na faixa de R$ 20 mil.”

O peso do delivery e a Zona Franca de Manaus A popularização do setor recebeu forte impulso com a pandemia e a consolidação de plataformas como iFood e Rappi. “Hoje, cerca de 22% das vendas do setor são destinadas ao segmento de delivery”, afirma o diretor da Abraciclo. O ecossistema também se beneficia dos incentivos fiscais do Polo Industrial de Manaus, onde mais de 90% da produção está concentrada. O faturamento do setor de duas rodas atingiu R$ 44,8 bilhões em 2025.

“A gente sabe que a Zona Franca de Manaus tem muitos desafios, entre eles a logística. Nós temos a questão dos incentivos fiscais, sim, mas o principal deles, que é o IPI, é revertido para o consumidor”, pontua Sergio Oliveira.

A ascensão das motos elétricas e autopropelidos No campo da sustentabilidade, marcas como a Watts — adquirida pelo grupo Multi — diversificam o portfólio com modelos elétricos e autopropelidos, veículos de até 32 km/h que dispensam CNH e emplacamento, atraindo trabalhadores urbanos.

“A gente foi migrando o nosso portfólio de produtos para esses veículos mais leves, com um custo mais acessível, sem todas as regulamentações, como necessidade de habilitação e de emplacamento. Como o consumidor não paga IPVA, o produto sai mais barato. Hoje, muitos fazem entregas com autopropelidos, até para não tomarem multas”, explica Rodrigo Gomes, CEO da Watts.

Desafios trabalhistas e novas regras O crescimento também reflete uma escolha profissional, servindo como porta de entrada para jovens no mercado de trabalho. “A moto, muitas vezes, é uma porta de entrada do jovem para uma atividade remunerada”, destaca Sergio Oliveira.

No entanto, o cenário traz debates sobre a precarização. O economista Marcelo Neri, do FGV Social, ressalta a vulnerabilidade da categoria. “O trabalhador de moto por aplicativos não tem seguro-desemprego e, principalmente, não tem proteção de saúde. Essas pessoas estão optando pela flexibilidade, até para ter mais renda, mas, de certa forma, também estão preferindo correr riscos, porque a precarização desse segmento em relação a acidentes é muito premente”, avalia.

“Esse não é mais aquele mundo sindical onde o Lula cresceu e prosperou. Há um segmento que atua por conta própria hoje, como MEI [Microempreendedor Individual]. Mais acho que o governo está tateando uma forma de atender a esse segmento”, completa Neri.

Para apoiar a categoria, o governo federal lançou o programa Move Brasil, oferecendo crédito facilitado em parceria com montadoras e aplicativos como 99 e iFood, financiando até 100% dos veículos em 48 meses sem entrada.

Fonte: Folha - Mercado