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Caderno Mercado

Índia corre contra o tempo para empregar a maior juventude do mundo

Índia corre contra o tempo para empregar a maior juventude do mundo

A rotina exaustiva de trabalhadores como Nande Kumar ilustra o colossal desafio socioeconômico enfrentado atualmente pela Índia. Profissional de uma multinacional financeira de segunda a sexta-feira, ele utiliza os fins de semana para atuar como motorista de aplicativo no trânsito de Nova Déli. Aos 32 anos e pai de dois filhos, ele resume a necessidade de sua jornada dupla: “Déli tem muita oportunidade para ganhar dinheiro e eu tenho de aproveitar, já que meu trabalho semanal não fecha a conta.”

A realidade do país das contrastantes metrópoles Enquanto nações como Japão, China e países europeus enfrentam o envelhecimento populacional, a Índia abriga cerca de 1,5 bilhão de habitantes. Desse total, aproximadamente 370 milhões de pessoas possuem entre 15 e 29 anos, configurando o chamado “dividendo demográfico”. Trata-se de um potencial humano enorme para impulsionar a economia, mas que se transforma em um grave problema caso o governo falhe em prover capacitação e postos de trabalho adequados em larga escala.

O Ministério das Finanças indiano reconhece a urgência da situação. Projeções oficiais apontam a necessidade de criar 7,8 milhões de vagas anuais fora do setor agrícola até 2030. O volume supera com folga o ritmo de economias estabilizadas, evidenciando a magnitude do obstáculo que o primeiro-ministro Narendra Modi tenta solucionar para alcançar a meta de tornar o país uma nação desenvolvida até 2047.

A transição da agricultura para a indústria Historicamente dependente do campo, a Índia ainda mantém 46% de sua força de trabalho na agricultura, setor responsável por menos de 20% da renda nacional. Embora o Produto Interno Bruto (PIB) tenha saltado de US$ 2 trilhões em 2014 para US$ 3,9 trilhões em 2025, o crescimento concentrado em serviços de tecnologia e softwares não é suficiente para absorver a imensa massa de trabalhadores menos qualificados.

Especialistas apontam a necessidade de fortalecer o setor fabril. Diretor do Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) Madras, o professor V. Kamakoti pontua a urgência de ampliar a base industrial do país: “Até o momento, sim, somos uma superpotência de software. Temos engenheiros excelentes. Mas é necessário fechar toda a cadeia de manufatura aqui com semicondutores, precisamos ter fábricas”, diz ele.

Desafios na educação e barreiras de gênero O acesso à formação de excelência permanece restrito a uma pequena parcela da população. Milhões de jovens disputam anualmente poucas vagas em instituições de ponta, enquanto o domínio do inglês e a qualificação técnica continuam sendo privilégios distantes das classes mais baixas. Para mitigar esse cenário, o IIT Madras desenvolveu programas de ensino online voltados a estudantes em situação de vulnerabilidade extrema. “Desses, mais de 10 mil estudantes estão quase na linha da pobreza extrema, mas têm a oportunidade de estudar na instituição número um do país”, destaca Kamakoti.

A desigualdade de gênero agrava ainda mais o panorama do mercado de trabalho. As mulheres representam cerca de 50% da população, mas respondem por apenas 30% da força ocupada. Além disso, estatísticas recentes mostram que um em cada quatro jovens indianos não estuda, não trabalha e não passa por nenhum treinamento profissional, índice que dispara para 42% entre as mulheres.

Perspectivas para o futuro da nação Entre a parcela mais jovem, a expectativa por dias melhores convive com a incerteza da informalidade. Jovens como Mohd Sameer, de 18 anos, mantêm o otimismo diante do cenário de transição: “Não estou trabalhando agora, não tenho um emprego, mas logo sairei em busca de um lugar e sei que vou conseguir”, afirma. No entanto, para milhões de trabalhadores submetidos a jornadas extenuantes e à poluição urbana, como o motorista Nande Kumar, as metas governamentais de longo prazo parecem distantes. Diante de suas aspirações pessoais, ele resume o desejo por uma vida mais tranquila: “Gosto de trabalhar aqui, mas preciso de ar fresco.”

Fonte: Folha - Mercado