Por que a alta recorde da bolsa após o primeiro turno esconde um risco para investidores
Quem acompanhou a oscilação do mercado financeiro na última segunda-feira (5) testemunhou o Ibovespa saltar 7,7% no pregão seguinte ao primeiro turno. Impulsionado pelo rompimento inédito da barreira dos 200 mil pontos, o principal indicador da Bolsa brasileira trouxe euforia para muitos aplicadores e uma falsa sensação de previsibilidade.
A ilusão matemática do segundo turno
A tentação de muitos agora é fazer a conta mais perigosa: “Se o primeiro turno deu 7,7% ao mostrar uma leve liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT), uma eventual confirmação de seu nome no dia 25 há de dar outro tanto”. A história discorda.
O mercado financeiro opera por lógicas próprias e distantes de bolhas virtuais ou conversas de aplicativos. Sem a pretensão de cravar prognósticos, vale analisar a trajetória das estradas já percorridas antes de acelerar.
O comportamento histórico do Ibovespa nas eleições
Um levantamento do desempenho da Bolsa no primeiro pregão após cada turno nas últimas seis eleições presidenciais, entre 2002 e 2022, revela um padrão revelador. Após o primeiro turno, o índice registrou alta em cinco das seis ocasiões, com média positiva de 2,1%.
Por outro lado, no dia posterior ao segundo turno, o cenário se inverteu: o Ibovespa recuou em quatro dos seis pleitos, registrando queda média de 1,3%.
O único precedente ocorreu em 2010, durante a primeira vitória de Dilma Rousseff (PT), quando o dia útil seguinte à definição final superou o primeiro turno, embora com variações modestas de 0,22% contra 1,26%, sem grande euforia dos investidores.
O peso da realidade sobre as promessas
A eleição de Jair Messias Bolsonaro (PL) ilustra com clareza essa dinâmica. Após a etapa inicial da disputa, o Ibovespa avançou 4,57%. No entanto, com a confirmação do resultado nas urnas, o indicador até bateu recorde nas primeiras horas da manhã, mas encerrou a sessão em baixa de 2,24%, deixando o prejuízo para quem apostou na continuidade da festa.
O fenômeno não tem relação com preferências partidárias, mas sim com a clássica dinâmica de realização de lucros dos grandes players, resumida no ditado “compre no boato, venda no fato”. O primeiro turno funciona como um catalisador de surpresas, revelando a configuração do Congresso, as divergências das pesquisas e permitindo a largada das apostas.
Investidores estrangeiros e o cenário de 2026
Ao longo das três semanas seguintes, as projeções vão sendo absorvidas pelas cotações. Quando o resultado oficial apenas ratifica o que os preços já indicavam, há escassez de novos atrativos para compra e abundância de capital pronto para ser embolsado.
Diferente do pequeno investidor, os grandes capitais não seguem influenciadores digitais. Dados do JPMorgan apontam que o capital estrangeiro responde por aproximadamente 63% do volume diário de negociações na B3. Apenas na segunda-feira (5), esses players injetaram R$ 10 bilhões em uma única sessão, estabelecendo o recorde histórico de aporte diário na Bolsa. Gestores internacionais operam friamente e realizam lucros sem remorso.
Para o pleito de 2026, o cenário traz um fator adicional: o salto de 7,7% representou a maior reação já registrada em um primeiro turno. Quanto mais o mercado se adianta, menor é o fôlego restante para as etapas seguintes.
Estratégia de longo prazo contra palpites
Para quem adota uma tese de investimentos focada no longo prazo, o período eleitoral representa apenas um capítulo, e não a trajetória inteira. Quando o planejamento financeiro depende exclusivamente do resultado de uma segunda-feira, a operação deixa de ser investimento e passa a ser palpite, prática incompatível com a segurança patrimonial. A recomendação fundamental permanece sendo a diversificação da carteira, única forma eficaz de mitigar os impactos do excesso de otimismo.
Fonte: Folha - Mercado