Mercado de dívida para inteligência artificial desacelera com cautela
A emissão de novas dívidas por empresas de tecnologia para financiar projetos caros de inteligência artificial sofreu uma queda acentuada em setembro, refletindo uma reavaliação dos riscos após um período de forte endividamento.
Retração nos mercados globais Dados compilados pelo Morgan Stanley apontam que a emissão global de dívida ligada ao setor caiu para US$ 23 bilhões no mês passado, o que representa menos da metade do volume registrado no período anterior. A captação de recursos vem diminuindo de forma contínua desde o pico alcançado em junho, quando companhias levantaram a cifra recorde de US$ 113 bilhões para custear infraestruturas essenciais, a exemplo de data centers e chips avançados. No mercado norte-americano de títulos com grau de investimento, onde grandes grupos tecnológicos captaram cerca de US$ 306 bilhões entre janeiro e agosto, a emissão de papéis do segmento travou completamente em setembro.
O Morgan Stanley atribui o recuo tanto ao expressivo volume de dívida já absorvido no início do ano quanto ao aumento das dúvidas sobre o retorno financeiro de investimentos tão vultosos a longo prazo. Além disso, a construção de centenas de centros de dados passou a enfrentar barreiras e oposição política em várias regiões.
“O financiamento efetivo do dia a dia está ficando um pouco mais complicado”, disse John Aylward, fundador da gestora de crédito londrina Sona Asset Management, durante o Private Capital Summit, promovido pelo FT e pela Latham & Watkins em Londres nesta semana. “Todos estão sendo procurados, e todos estão ficando um pouco mais rigorosos.”
Crescimento acelerado e novos desafios Apesar da freada atual, o ritmo anual de captação permanece elevado. Estima-se que as empresas já tenham acumulado US$ 466 bilhões em dívidas vinculadas à tecnologia ao longo do ano, superando os US$ 101 bilhões contabilizados em igual período do ano anterior. Essa enxurrada de ofertas permitiu que os credores exigissem taxas de retorno mais altas, encarecendo a expansão dos chamados hiperescaladores.
A mudança no humor do mercado agora coloca à prova futuras operações multibilionárias, como o pacote de financiamento de US$ 60 bilhões que bancos de Wall Street preparam para Broadcom e Anthropic, além das negociações da SpaceX para captar US$ 40 bilhões destinados à compra de chips da Nvidia.
Resistência local e problemas operacionais Paralelamente à cautela financeira, grandes complexos de processamento de dados enfrentam resistência comunitária devido ao elevado consumo de recursos como água e eletricidade, além de impactos na qualidade do ar. Um exemplo é o campus de data centers da Oracle no Novo México, batizado de “Project Jupiter”, cujos empréstimos de cerca de US$ 18 bilhões entraram em zona de pressão após a emissão de uma notificação de força maior diante de dificuldades para obter energia elétrica.
“Será que vamos aprender rápido o suficiente com esses erros?”, questionou Jordan Rieger, sócio-diretor e chefe de crédito europeu da Monarch Alternative Capital, ao comentar os riscos do financiamento para a infraestrutura digital.
Para Rieger, a desaceleração serve como uma oportunidade para reavaliar o risco de crédito: “É uma pausa saudável para perguntar: estruturamos corretamente essas linhas de crédito?”
Visão dos gestores de crédito Especialistas apontam que a forte especulação e o nível elevado de alavancagem em algumas transações exigem cautela redobrada. Rob Dafforn, diretor de investimentos da Polus Capital, destacou que o custo dessas operações é alto e gera incertezas sobre os perfis de retorno.
“O custo de financiamento de algumas dessas transações é alto, e, diante dessa incerteza quanto aos prazos [e] aos perfis de retorno, não tenho certeza de onde o valor está realmente se acumulando no sistema”, disse Dafforn.
A velocidade com que essa tecnologia avançou sobre os mercados de crédito carece de paralelos históricos, o que mantém analistas em alerta sobre a estabilidade do sistema financeiro diante de um setor em constante mutação.
“Muitas vezes, nós nos vemos em novos setores ou novos ramos construindo os trilhos enquanto conduzimos o trem”, concluiu Rieger. “Esperamos que ele não descarrile antes que seja tarde demais.”
Fonte: Folha - Mercado