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Sobrevivente do século 15 desafia a Idade Média em busca de justiça

Sobrevivente do século 15 desafia a Idade Média em busca de justiça

Durante o rigoroso inverno de 1472 na cidade francesa de Dijon, uma mulher grávida chamada Jehanne foi vítima de uma grave violência sexual cometida por mercenários. O caso, minuciosamente documentado em pergaminhos antigos e analisado recentemente em um livro, desconstrói mitos arraigados sobre a forma como a sociedade medieval lidava com crimes dessa natureza.

Investigação e o contexto de Dijon na Idade Média Sob a ameaça de invasões devido aos conflitos entre o rei da França e o duque da Borgonha, Dijon estava repleta de mercenários violentos que aterrorizavam a população local.

“Havia problemas constantes: homens que saíam à noite em busca de possíveis vítimas para extorquir, abusar, sequestrar ou manter em cativeiro em troca de resgate”, explica McDougall à BBC.

“As autoridades municipais estavam muito insatisfeitas com a situação. Esse foi um importante ponto de conflito entre a cidade e o duque.”

O ataque e a resposta das autoridades Em janeiro de 1472, após ter sua casa invadida, Jehanne foi arrastada para um campo e agredida por homens que desrespeitaram sua gravidez avançada. Contrariando a crença popular de que vítimas medievais eram silenciadas e estigmatizadas, o investigador municipal Jaques Borestel acolheu o relato da vítima logo no dia seguinte, reunindo provas rápidas que resultaram na captura dos suspeitos e em confissões obtidas até mesmo sob tortura.

Verificação da credibilidade de Jehanne Enquanto o município buscava punir os criminosos, as autoridades investigaram a vida da denunciante para atestar sua honestidade. Descobriu-se que ela mentira sobre o casamento e mantinha um relacionamento com um padre, tendo filhos ilegítimos. Confrontada sobre isso, Jehanne justificou suas escolhas com uma frase marcante:

“Era melhor dispor do próprio corpo para ganhar a vida do que recorrer a roubar as pessoas”.

O desfecho do caso e a visão histórica Mesmo diante das revelações sobre a vida pessoal de Jehanne, a promotoria municipal considerou tais fatos irrelevantes para o julgamento dos agressores. Contudo, manobras políticas e falsas alegações de imunidade eclesiástica acabaram libertando os mercenários após dois meses, e o paradeiro posterior de Jehanne permaneceu desconhecido nos registros históricos fragmentados.

Apesar das adversidades da época, a pesquisa destaca que a experiência de Jehanne revela uma realidade jurídica surpreendente e menos punitiva às vítimas do que se imaginava historicamente.

“Na sociedade medieval, não existia — pelo menos até onde pude descobrir — o costume de culpar ou envergonhar a vítima”, afirma McDougall.

“Mulheres podiam apresentar denúncias. Não era exigido que tivessem uma memória perfeita nem que fossem virgens irrepreensíveis.”

Fonte: Mundo