Saneamento básico em Sergipe: Sertão sofre com falhas no serviço
Maria Vaneide Gomes mostrou o acervo de caixas d’água no fundo de casa.
Antônio Cardoso/g1/TV Sergipe
Em uma casa de poucos metros quadrados na Zona Rural do município de Nossa Senhora das Dores, no Médio Sertão Sergipano, Maria Vaneide Gomes tem mais caixas d’água do que pessoas morando com ela. O esposo, dois netos e a aposentada dividem a residência de poucos cômodos com uma série de baldes e reservatórios. A neta mais nova, que completou 12 anos, nunca tinha visto água na torneira da residência até o julho deste ano.
Vaneide e boa parte da família vivem em casas ao longo da comunidade de Barreiros, que fica na região do Povoado Volta. Por lá, os relatos são de que algumas casas ficaram 15 anos sem abastecimento de água.
“Geralmente, os meninos que trabalham lá na cidade voltavam de moto e traziam uns baldes e tonéis de água, ou então o carro-pipa. Era vivendo de carro-pipa”, relatou a idosa.
A sergipana explica que a região é seca, mas não tanto quanto outras cidades mais ao norte, com um semiárido mais característico de caatinga.
Ainda de acordo com ela, a chuva chega a ser regular e eles até receberam a construção do programa Água Para Todos, do Governo Federal, na década de 2010. No entanto, a cisterna acabou apresentando um vazamento, e a água da chuva já não é mais utilizada há alguns anos.
Foi essa rotina que levou a família a acumular caixas d’água ao longo dos anos, até 2026, quando a água voltou à torneira, mas não com regularidade.
José Heleno dos Santos mostra a água dentro de casa.
Antônio Cardoso/g1/TV Sergipe
Vaneide relata que, atualmente, o abastecimento alterna, chegando a passar uma semana inteira com água e outra semana sem nada. A pouco menos de um quilômetro de distância, ainda no Povoado Volta, a rotina de José Heleno dos Santos é parecida, mas a frequência de água, segundo ele, é mais regular.
“Ainda falta, mas agora a gente tem aqui [disse apontando para a mangueira de água], olhe que bonito: a água dentro de casa”, disse.
Ainda falta esgotamento sanitário
De acordo com levantamento do Instituto Água e Saneamento, o município de Nossa Senhora das Dores chega a superar 99% da população atendida com abastecimento de água, o que não significa um fornecimento regular. Já quando se fala em esgotamento sanitário, o panorama — com base nos dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa 2024) — mostra que pouco mais da metade dos moradores, cerca de 53,9% da população, é atendida pelo serviço.
O povoado onde moram Vaneide e José Heleno ainda não conta com essa infraestrutura. Mas o problema não se restringe à Zona Rural: dentro da sede do município, a realidade chega a ser pior, com o esgoto de uma série de residências sem vazão, sendo despejado em via pública.
Animais também são expostos aos riscos da falta de esgotamento sanitário.
Antônio Cardoso/g1/TV Sergipe
Um levantamento do Instituto Água e Saneamento aponta para 11.778 habitantes sem coleta de esgoto, de uma população de 24.996 pessoas, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na Rua José Teles Barreto, no Bairro Fontinhas, por exemplo, o que sai das residências percorre um caminho de mau cheiro, expondo moradores, crianças e animais a um risco sanitário e ambiental. A própria Iguá Sergipe, empresa responsável pelo serviço, aponta que os benefícios da interligação à rede de esgoto alcançam a saúde pública — ao reduzir a exposição da população a agentes contaminantes — e a preservação ambiental, evitando que o material tóxico seja lançado em rios, canais, lagoas, manguezais e no solo.
Um estudo do Instituto Trata Brasil aponta que diarreias, verminoses, doenças de pele e as causadas pela proliferação de mosquitos, como dengue e chikungunya, internaram 344 mil brasileiros só em 2024. São doenças diretamente ligadas a falhas nos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Dados de Sergipe x meta do Marco Civil do Saneamento Básico
Os dados do Sinisa 2024, disponibilizados pelo Ministério das Cidades, confirmam que apenas 65,6% da população sergipana é atendida com coleta de esgoto.
Esgoto expõe risco sanitário a moradores de Nossa Senhora das Dores.
Antônio Cardoso/g1/TV Sergipe
O número mostra que cerca de 800 mil pessoas no estado não têm acesso ao serviço. Quando o recorte é feito com a população rural, esse índice cai para 36,5%, enquanto na Zona Urbana chega a 72,8%. Esse patamar ainda está muito abaixo da meta estabelecida há seis anos pelo Marco Civil do Saneamento Básico, aprovado em 2020.
O texto prevê que, até 2033, 90% da população brasileira devem ter acesso ao tratamento e à coleta de esgoto. Um levantamento do Instituto Trata Brasil divulgado no ano passado mostra que o Brasil chegou a 2025 com quase metade da população sem coleta ou tratamento de esgoto — mais de 90 milhões de brasileiros.
Conheça os principais pontos do novo marco legal do saneamento
Para alcançar as metas estabelecidas no início da década, foram anunciados investimentos em todo o país. No entanto, apesar dos avanços, o ritmo ainda é insuficiente para garantir a universalização até 2033.
Um estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, mostrou que o investimento médio anual por habitante cresceu 51% entre 2020 e 2024, passando de R$ 90,54 para R$ 137,02. Contudo, o levantamento aponta que o valor ainda está distante dos cerca de R$ 225 por habitante ao ano estimados como necessários para atingir as metas de universalização.
Em Sergipe, os serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto foram privatizados após a concessão da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso), com as operações assumidas pela Iguá Sergipe em 2025. Com contrato de 35 anos, a empresa prevê aportar R$ 6,3 bilhões em investimentos.
O que diz a Iguá
A Iguá Sergipe afirmou que, em 2025, foram realizadas intervenções por meio da instalação de 16 novos sistemas de bombeamento, como o que beneficiou a comunidade de Maria Vaneide e José Heleno, além de 20 km de adutoras na região metropolitana e mais de 19 km de ampliação de redes de água e esgoto.
Para 2026, estão previstos aproximadamente R$ 500 milhões em investimentos por meio de obras como novos sistemas de bombeamento, reservatórios e novas adutoras, além de 426 km de ampliação de redes de água e esgoto.
Fonte: SERGIPE