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Caderno Mercado

Congelamento de óvulos no esporte avança, mas exige suporte amplo

Congelamento de óvulos no esporte avança, mas exige suporte amplo

O incentivo ao planejamento reprodutivo tem ganhado espaço no futebol profissional feminino por meio do custeio de procedimentos de preservação da fertilidade. A oferta de tratamentos médicos voltados à maternidade tardia por parte de agremiações e federações representa um passo importante para a categoria, mas especialistas apontam que o benefício precisa ser acompanhado por garantias trabalhistas mais amplas para surtir efeito definitivo.

A expansão do benefício no Brasil e no cenário internacional

Nos Estados Unidos, equipes da principal liga de futebol feminino já financiam o congelamento de óvulos para seus elencos há pelo menos cinco anos. Mais recentemente, o movimento alcançou a Europa, com anúncios da Real Federação Espanhola de Futebol e do Chelsea, da Inglaterra, que passaram a cobrir os custos do procedimento.

No futebol brasileiro, o São Paulo também aderiu à tendência ao oficializar uma parceria estratégica com uma instituição médica especializada em reprodução humana assistida, estendendo a alternativa às suas atletas.

O conflito entre o auge atlético e a fertilidade biológica

A discussão sobre direitos reprodutivos é sensível no meio esportivo porque o pico de rendimento físico das jogadoras — situado habitualmente entre os 20 e o início dos 30 anos — coincide diretamente com o período de maior fertilidade feminina. Diante da necessidade de manter contratos e patrocínios em alta competitividade, adiar os planos familiares costuma ser uma escolha frequente.

A regulamentação trabalhista sobre o tema ainda caminha a passos lentos. Foi apenas em 2021 que a Fifa, em acordo com o sindicato global FIFPro, formalizou a obrigatoriedade de ao menos 14 semanas de licença-maternidade com remuneração mínima de dois terços do salário regular.

A urgência da medida ficou evidente a partir de levantamentos realizados pela própria categoria: um estudo divulgado em 2017 apontou que apenas 2% das futebolistas em atividade eram mães. Na mesma pesquisa, cerca de 50% das profissionais declararam ter planos de encerrar a carreira precocemente pela ausência de suporte institucional e financeiro para terem filhos.

Custos contínuos e necessidade de informação transparente

Apesar da relevância da cobertura inicial da coleta, o processo completo de reprodução assistida engloba custos contínuos que pesam no orçamento das atletas. Procedimentos complementares como manutenção do congelamento em laboratório, fertilização in vitro, exames periódicos e acompanhamento clínico representam valores elevados.

Nos projetos mantidos pelo Chelsea e pela federação espanhola, o custeio inclui etapas posteriores e suporte pedagógico. Essa conscientização é indispensável, uma vez que a criopreservação não constitui garantia absoluta de gravidez futura, demandando clareza sobre os percentuais reais de eficácia e os impactos físicos do tratamento hormonal.

Autonomia de escolha e acolhimento nas equipes

A oferta desse tipo de cuidado médico não pode se transformar em um mecanismo indireto de pressão para que as profissionais posterguem a gestação. A preservação biológica deve funcionar estritamente como um recurso acessível, e não como uma imposição dos clubes para evitar desfalques durante as temporadas.

O avanço estrutural no esporte feminino depende da criação de ambientes adequados para a maternidade, modernização de instalações esportivas e segurança contratual plena, permitindo que a decisão de ter filhos ocorra no momento escolhido por cada mulher.

Fonte: Folha Esportes