Fórmula 1 em Ruanda gera debate sobre custos e direitos humanos
Um acordo formalizado entre as autoridades de Kigali, a administração da categoria e a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) colocou Ruanda na rota da Fórmula 1 para o início da década de 2030. Contudo, os planos de receber a principal modalidade do automobilismo mundial dividem opiniões em âmbito internacional, oscilando entre promessas de avanço econômico e fortes críticas sobre o uso político do esporte.
Denúncias de sportswashing e repressão
Organizações de defesa dos direitos fundamentais reagiram com indignação ao projeto. A Anistia Internacional apontou a manobra como “sportswashing” e acusou Kigali de “comprar participação nos esportes mais importantes do mundo para melhorar sua imagem e desviar a atenção de seu terrível histórico em matéria de direitos humanos”. Questionamentos similares sobre a escolha de sedes já ocorreram anteriormente em etapas disputadas no Azerbaijão e na China.
A conduta diplomática e interna do governo ruandês também entrou no centro da discussão. Ao comentar o anúncio, Kenneth Roth, ex-diretor da Human Rights Watch, citou na rede social X a “invasão do leste da República Democrática do Congo por Ruanda, por meio do M23”, em alusão à milícia armada que ocupou territórios vizinhos com suporte bélico e financeiro de Kigali. Paralelamente, opositores acusam o presidente Paul Kagame de silenciar dissidentes ao longo de sua permanência no poder.
Riscos financeiros e a parceria com o Qatar
A viabilidade orçamentária é outro ponto sensível da empreitada. Nações com economias maiores, a exemplo de Coreia do Sul e Índia, chegaram a erguer autódromos dedicados à modalidade, mas deixaram o calendário esportivo após acumularem grandes rombos financeiros. Diante desse histórico, um dos participantes estrangeiros da cerimônia observou: “Espero realmente que Ruanda não esteja tentando fazer mais do que pode”.
Ruanda tem apresentado evolução contínua, mas ocupa a 159ª posição entre 193 territórios no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU e registra um PIB per capita ligeiramente superior a US$ 1.100. Críticos alertam que os montantes milionários exigidos para taxas contratuais e para a construção da pista poderiam atender áreas essenciais, como saúde pública e educação.
Para mitigar parte das despesas, o projeto conta com retaguarda externa: segundo uma fonte ligada à FIA, o governo do Qatar está “apoiando” a candidatura ruandesa. O país do Golfo inclusive lidera as obras de um aeroporto internacional em Bugesera, situado a 40 quilômetros da capital e nas proximidades de onde o circuito deve ser construído.
A aposta na visibilidade esportiva
Em defesa da iniciativa, Paul Kagame declarou que a corrida representa um “investimento no futuro de Ruanda” capaz de gerar “empregos, turismo e novos negócios ao nosso país e à nossa região durante décadas”. O país africano quer utilizar o alcance da F1 — que fica atrás somente dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo em audiência global — para exibir suas florestas, relevo montanhoso e fauna, buscando afastar a lembrança associada ao genocídio de 1994.
O movimento amplia uma estratégia já em andamento. No ano passado, o país sediou o Campeonato Mundial de Ciclismo, tornando-se pioneiro no continente africano. Além disso, a marca de turismo institucional “Visit Rwanda” mantém parcerias publicitárias de destaque internacional, figurando nos uniformes de equipes de ponta como o Paris Saint-Germain (PSG) e o Los Angeles Clippers, da NBA.
Fonte: Folha Esportes