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Caderno Mercado

Aposentada viaja pela América em motorhome com piano a bordo

Aposentada viaja pela América em motorhome com piano a bordo

Longe de qualquer ideia convencional sobre aposentadoria, Solange Mendes Souza, de 67 anos, transformou a estrada em seu endereço principal. A bordo de uma casa sobre rodas de quatro toneladas, a ex-servidora do Ministério Público Federal percorre milhares de quilômetros pelas Américas acompanhada de uma paixão redescoberta: as teclas de um teclado musical.

O renascimento de um plano da juventude

A vontade de explorar o planeta surgiu na década de 1970, quando Solange planejava trancar a faculdade para rodar o mundo ao lado do irmão antes de ingressar na rotina profissional. No entanto, uma tragédia familiar — um acidente que tirou a vida de seu pai e do irmão — mudou radicalmente o rumo dos acontecimentos. A partir da perda, ela construiu uma carreira consolidada no Direito, casou-se quatro vezes e dedicou anos ao trabalho público. Foi apenas aos 64 anos, com a aposentadoria, que a antiga aspiração voltou à tona, dando início ao projeto batizado de Piano Nômade.

Com o passar dos anos, o formato de mochilão com voluntariado já não atendia às suas necessidades, enquanto a hospedagem contínua em hotéis pesaria demais nas finanças. A resposta definitiva foi a adaptação de um veículo próprio para as viagens.

A música como companheira de jornada

Junto ao anseio de explorar novos territórios, outro objetivo de infância precisava de um recomeço. Na infância, Solange abandonou os estudos musicais após ser agredida na mão por uma professora rígida. Durante o terceiro casamento, até chegou a ganhar um instrumento do marido, mas a rotina acelerada impediu a dedicação. A retomada veio na pandemia por meio de aulas virtuais.

Ao estruturar o veículo, fez questão de acomodar um modelo digital da marca Roland para tocar durante as pausas dos trajetos. “Não é igual a um piano acústico, mas dá para o gasto”, diz Solange em uma brecha de suas correrias sobre rodas.

Da estreia no Sul aos extremos da América do Sul

A montagem da estrutura veicular foi finalizada em novembro de 2024. A partir de Porto Alegre, onde mantém sua residência oficial, a motorista realizou pequenos testes regionais. “O teste era importante porque um motorhome é sempre artesanal, um veículo de 4 toneladas não é como dirigir um carro normal, nem um SUV, é outra exigência”, explica.

Gradualmente, os roteiros se expandiram. Após circular por um mês no Uruguai e passar três meses na Argentina, decidiu regressar cruzando o território paraguaio. “A fronteira, ali, era caótica, um astral não muito bom”, lembra. “As pessoas se aproximavam, você não sabia se eram funcionários da fronteira ou não, ofereciam câmbio irregular à luz do dia, na cara dos policiais, horas esperando e tive que dormir numa área próxima da fronteira, algo que evito porque costuma ser problemática em termos de segurança”, acrescenta.

Apesar do momento tenso, a experiência nas pistas vizinhas surpreendeu positivamente. Ela relata que “a estrada no Paraguai era coisa de primeiro mundo, uma boa surpresa”, tranquilizando parentes e amigos que acompanham seus passos pelo aplicativo de mensagens.

Tempos depois, a viajante rumou para Ushuaia e encarou as águas turbulentas do estreito de Drake em uma embarcação a vela para chegar a Puerto Williams e visitar a Antártica. A decisão de ir ao continente gelado quase coincidiu com o aniversário de uma das netas, mas Solange encontrou a justificativa perfeita: “quantas coleguinhas dela poderiam dizer ‘minha avó está na Antártica?'”

Fuga das chuvas e custo de vida reduzido

A aventura também envolveu imprevistos causados pela natureza, como na ocasião em que o fenômeno El Niño alterou completamente sua rota entre o Chile e o Peru. “Eu estava no norte do Chile pensando em ir até o Peru para, de Lima, voltar para passar aniversário dos netos no Brasil em agosto”, diz. Contudo, o clima mudou os planos: “Saí do acampamento onde estava com inundações atrás de mim, estradas interrompidas e passei dois meses correndo à frente das tempestades, subindo pela América do Sul”.

Diante do bloqueio, cruzou a fronteira brasileira pelo Acre e percorreu o país de volta ao Rio Grande do Sul. Questionada sobre os alertas de perigo, rebate o receio comum. “Antes de eu sair, um amigo falou que eu era louca, que isso é muito perigoso”, afirma, “mas eu sempre digo que perigoso é ficar no sofá, morre muito mais gente sentada no sofá”.

Em termos financeiros, a vida itinerante se mostra mais sustentável do que parece. Pelas contas da viajante, manter a rotina sobre rodas consome entre 50% e 70% do orçamento exigido por uma moradia fixa, mesmo incluindo voos esporádicos para datas comemorativas e as contas básicas de sua casa mantida fechada no Sul.

Próxima parada: do México ao Alasca

Os projetos para o futuro próximo já estão traçados. Solange planeja adquirir uma condução com maior potência para transportar um piano acústico tradicional em uma travessia de longo prazo pela América do Norte, indo do território mexicano até as paisagens frias do Alasca, em um roteiro estimado para durar de três a quatro anos.

“Quero alternar mato e cidade, pelo menos duas vezes por semana fazer academia em alguma cidade maior ou menor e fazer musculação, que é necessária na nossa idade”, aponta. E deixa a pergunta no ar: “Não é legal?”

Fonte: Folha Esportes