Cadeia do pescado une tradição e cooperativismo no ES
Mais do que uma fonte de subsistência, a pesca artesanal e o cultivo aquícola formam uma engrenagem que conecta saberes ancestrais, modernização científica e fortalecimento financeiro no Espírito Santo. Com mais de 51 mil trabalhadores registrados na modalidade artesanal em território capixaba, a atividade envolve desde rituais indígenas de preservação até cadeias estruturadas de piscicultura no interior do estado.
Transformações ambientais e a perda da pesca nativa
Na Aldeia Piraquê-Açu, situada em Aracruz, a relação com os cursos d’água transcende a rotina econômica. Antes de qualquer atividade, o cacique Kara’í Perú e a mãe, a pajé Keretxu Emdey, de 86 anos, realizam preces tradicionais em guarani em busca de proteção para as correntes fluviais, a fauna aquática e os moradores.
Apesar da forte ligação cultural, o sustento retirado diretamente daquelas águas sofreu um rompimento drástico na última década. O cacique relembra a fartura de tainhas, robalos, pescadinhas e carapebas, cenário que deu lugar à escassez.
O rio, para nós, é uma vida. É de onde a gente ‘tira peixe, tira outras coisa’ do rio pra poder alimentar nossa família. Deus criou o rio e a gente tem que cuidar dele, disse o cacique.
Sem poder recorrer à pesca que sustentou gerações, o líder relata as limitações enfrentadas pela comunidade local.
Eu mesmo tenho dez anos que não pesco nesse rio. Mais de dez anos! A gente não come peixe desse rio mais. Eu tenho que comprar porque não tem como, relatou o indígena.
Para o cacique, a degradação ambiental se acentuou após o desastre da barragem de Mariana, em 2015. Embora a correlação direta dependa de comprovação em estudos ambientais específicos, a comunidade viu a dinâmica local mudar radicalmente. Diante da situação, resumiu: O rio tá morto. A criação em tanques chegou a ser adotada como alternativa, mas temores sobre a pureza do lençol freático fazem com que os moradores ainda dependam de pescados vindos de fora da aldeia.
Profissionalização e permanência dos jovens no setor
Em outra frente da cadeia produtiva, o desafio consiste em organizar profissionais autônomos e valorizar o conhecimento tradicional. Representante do Sindicato dos Pescadores do Estado do Espírito Santo (Sindipesca-ES), Rafael Viola ressalta a importância humana por trás do trabalho marítimo.
O pescador conhece a lua, o vento, o comportamento dos animais, os lugares onde eles aparecem e o momento certo de sair para o mar. É um saber construído ao longo de gerações. A pesca é uma cultura que está viva na mente do pescador. Por isso, quando ele morre, acaba, disse Viola.
Para mitigar a fragmentação entre captura, transporte, conservação em gelo e comércio, entidades buscam articular parcerias. Projetos como a Semana do Pescado, por exemplo, alcançam cerca de 200 toneladas comercializadas e movimentam aproximadamente R$ 7,5 milhões anualmente no estado.
Essa transição geracional motivou Ianca de Oliveira Silva Lima, de 30 anos, a buscar a academia. Neta e filha de profissionais da área, ela cursa o 8º período de Engenharia de Pesca no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) em Piúma, aliando o ensino à gestão de sua própria peixaria.
A pesca é sofrida, é uma atividade bonita para quem vê, mas na prática é sofrida, afirmou a universitária, que vivenciou as incertezas financeiras provocadas pelos custos de combustível e provisões antes de cada embarque paterno.
Ao se qualificar, ela planeja prestar assessoria técnica à classe trabalhadora.
Depois de formada, meu desejo é continuar trabalhando com a minha peixaria e levar o conhecimento e as informações à classe, ajudar naquilo que for possível, porque eu sempre digo que eu sou uma defensora da pesca. Então, eles sempre podem contar comigo. E o que eu posso fazer para ajudar, seja na compra do pescado, seja na valorização, eu tô aí, garantiu.
Celebrando suas origens, Ianca conclui: Eu sou filha de pescador, sou neta e filha de peixeiro, eu sou sobrinha, eu sou prima, eu sou irmã, e futuramente, se Deus quiser, vou ser uma engenheira de pesca.
Piscicultura integrada e força do cooperativismo
Na Região Serrana capixaba, a aquicultura desponta integrada à agricultura familiar. Em Domingos Martins, a família Sassemburg Pereira reservou tanques de sua propriedade para produzir tilápias ao lado de lavouras tradicionais. O médico-veterinário Frederico Sassemburg Pereira retornou da graduação para aperfeiçoar a infraestrutura familiar, que gera 20 toneladas ao ano, com potencial para 40 toneladas.
Saí, estudei e agora a gente consegue aprimorar as demandas da nossa produção, fazer com que seja mais produtivo e lucrativo, explicou o médico-veterinário.
O produtor pontua o alívio financeiro proporcionado pela adesão à Cooperativa de Empreendedores Rurais de Domingos Martins (Coopram), que fornece ração a prazo e assegura a retirada dos animais prontos.
Quando a gente precisa de comprar ração por fora, o custo acaba ficando um pouco mais elevado, porque você tem que comprar e pagar à vista. Então, com a cooperativa a gente compra pra pagar no final do ciclo, a gente paga com a venda do próprio peixe, explicou.
Sobre a rotina na propriedade, ele complementa: Trabalhar com pescado é gratificante, porque a gente consegue ver que dentro da água cresce a vida e ela realmente floresce. Fazendo um tratamento certo, você consegue produzir muito em uma área pequena. Então, você consegue melhorar muito a vida da família.
De acordo com o presidente da Coopram, Darli Schaefer, o modelo cooperativo atende tanto o mercado capixaba quanto os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Criada com 20 participantes, a entidade conta hoje com mais de 700 filiados — sendo 200 na área da tilápia — e investiu R$ 12 milhões em uma unidade fabril de filetagem com meta futura de processar 20 toneladas diárias.
Políticas públicas e panorama econômico
Dados do IBGE repercutidos pela Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) indicam que a aquicultura alcançou cerca de 7,18 mil toneladas em 2025 no estado, segmento dominado amplamente pela criação de tilápia (99%) e com movimentação calculada em R$ 85 milhões.
O titular da Seag, Enio Bergoli, frisa que a estruturação coletiva reduz despesas operacionais e garante canais de escoamento, como a compra pública de filés para alimentação escolar.
Uma coisa é um produtor ou um pescador ir lá individualmente fazer uma aquisição. Outra coisa é ele estar organizado e fazer uma grande aquisição via cooperativa. Ele consegue descontos maiores. Ou seja, com o cooperativismo, dá escala para se vender e dá uma dimensão para se comprar. Você ganha tanto na venda quanto na aquisição dos insumos necessários à pesca, reforçou Bergoli.
O gestor projeta investimentos em tecnologia e maricultura para mitigar a sobrecarga nas rotinas de captura em alto-mar.
Com reforço na assistência técnica e extensão pesqueira, a gente precisa modernizar os métodos de captura para que se tenha um menor esforço no mar. Vejo, no futuro, um projeto de reestruturação da maricultura com foco em pescadores que possam, além de ir para o mar, ter cultivo marinho ao longo da costa, gerando mais renda, contou Bergoli.
Entre as inovações tecnológicas e as transformações produtivas, as preces dos povos originários persistem às margens dos rios capixabas. O cacique Kara’í Perú sintetiza a reverência que mantém a esperança viva na foz do Piraquê-Açu:
É um canto que a gente pede lá na Casa de Reza. Com o coração mesmo que Deus vai ouvir esse canto que eu fiz para ele. Tá? É um canto de benção para os rios, para os mares, para os peixes que Deus vai olhar para nós todos, inclusive. E abençoar.
Fonte: G1 Economia