China vira concorrente do frango brasileiro e desafia o mercado
A China está ampliando a produção e as exportações de carne de frango, uma dinâmica que pode transformar o país asiático em um novo rival do Brasil no comércio internacional. Atualmente, o território brasileiro se mantém como o maior exportador global da proteína, mas o cenário externo passa por transformações relevantes em 2026.
Crescimento da produção e excedente externo
A produção chinesa registrou alta superior a 9% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Paralelamente, a demanda interna menor por cortes específicos elevou o volume disponível para o mercado externo. De acordo com o Rabobank, banco especializado em agronegócio, a produção avançou mais de 9% neste ano, após um crescimento de cerca de 7% em 2025.
Com essa expansão, a China passou a enviar mais carne in natura para fora, destacando-se o peito de frango. De janeiro a maio de 2026, os chineses exportaram 257,1 mil toneladas desse corte, o que representou 63,3% do total vendido ao exterior, segundo a alfândega do país. Os embarques do item cresceram 59,6% ante os cinco primeiros meses de 2025. Ao todo, a China exportou 546 mil toneladas de carne de aves no período, alta de 51% segundo o USDA. Em 2025, o volume total foi de pouco mais de 1 milhão de toneladas, colocando o país na quinta posição global. O Brasil, por sua vez, exportou cerca de 5,3 milhões de toneladas no ano passado.
Preferências culturais e o comércio bilateral
Mesmo com o aumento da oferta interna, a China continuou figurando entre os principais destinos do frango brasileiro em 2026. O país liderou as compras da proteína em fevereiro, abril, maio, junho, julho e agosto. Em setembro, ficou na terceira posição, com 40,9 mil toneladas, atrás de Emirados Árabes Unidos (45,9 mil toneladas) e União Europeia (43,5 mil toneladas). Entre janeiro e setembro, o Brasil enviou 420,4 mil toneladas à China, gerando uma receita de US$ 1,15 bilhão (cerca de R$ 5,73 bilhões).
Essa parceria contínua ocorre porque os consumidores de Brasil e China têm preferências distintas. Enquanto no mercado brasileiro há forte demanda por peito, coxa e sobrecoxa, os chineses valorizam intensamente pés e asas. O pé de galinha, por exemplo, é consumido como petisco ou usado em sopas e caldos. Em 2025, as vendas brasileiras desse item renderam US$ 221 milhões, com a China na liderança dos compradores a um preço de cerca de US$ 3 mil por tonelada, conforme o padrão de qualidade.
Perspectivas e concorrência internacional
Especialistas apontam que os números indicam uma nova realidade comercial. Segundo Chenjun Pan, especialista em proteínas animais do Rabobank, a China pode se tornar uma concorrente relevante do Brasil no mercado internacional, com maior disputa prevista no Oriente Médio, na Ásia e na África.
Por outro lado, Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), avalia que o avanço chinês não deve tirar espaço dos exportadores brasileiros. “O Brasil continua sendo o país mais competitivo no comércio global. Segundo a FAO, dois terços do aumento global do consumo de proteínas devem vir da carne de frango, o que cria espaço para novos participantes e contribui para a segurança alimentar mundial.”
Santin também pontua que os hábitos alimentares variam globalmente: “São questões culturais, de acordo com cada país. Os japoneses, por exemplo, gostam de pernas de frango e até de cartilagens. Os brasileiros têm uma preferência mais ampla. Os africanos preferem pernas. Os europeus consomem mais peito”.
Apesar do crescimento das exportações chinesas, a carne do país ainda enfrenta barreiras sanitárias em mercados rigorosos, como União Europeia, Japão e Coreia do Sul, cujas regras específicas podem limitar compras de regiões afetadas pela gripe aviária. Desse modo, as diferenças de consumo e as exigências sanitárias ajudam Brasil e China a ocuparem espaços distintos no comércio exterior.
Fonte: G1 Economia