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Caderno Mercado

Operação Contenção completa um ano sem conclusão sobre mortes

Operação Contenção completa um ano sem conclusão sobre mortes

Completados doze meses desde a ação policial mais letal da história fluminense, as circunstâncias e os responsáveis pelos óbitos registrados nos complexos de favelas do Alemão e da Penha ainda carecem de respostas definitivas.

O histórico da megaoperação Iniciada na madrugada de 28 de outubro de 2025, a ofensiva mobilizou mais de 2,5 mil agentes das forças de segurança com a justificativa de combater o avanço territorial da facção criminosa Comando Vermelho. O saldo oficial contabilizou 122 vítimas fatais, incluindo cinco policiais, além de intensos confrontos e veículos incendiados na zona norte da capital.

Investigações em andamento O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio de seu Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública, instaurou um Procedimento Investigatório Criminal para apurar os fatos. O promotor de Justiça Fabio Correa conduz o caso e define o inquérito como um episódio sem precedentes.

“É uma situação sui generis, como nunca aconteceu na história da segurança pública do Rio de Janeiro, tanto que é considerada a operação mais letal da história”, destaca o promotor.

Até o momento, os investigadores coletaram depoimentos de centenas de agentes e de dezenas de detidos, além de analisar milhares de horas de gravações de câmeras corporais e relatórios periciais.

Casos atípicos e desvios de conduta Entre os registros analisados pelo IML e pelo Ministério Público, episódios como um óbito decorrente de disparos a curta distância e um caso de decapitação permanecem sob rigorosa análise pericial.

“[Os dois casos] não são conclusivos e permanecem ainda em apuração no bojo dessa investigação, que apura a totalidade das mortes, não só dos civis, como também dos policiais”, ressalta Corrêa. “É um elemento de prova, um elemento que vai ser trazido aos autos junto com os demais, com as demais análises sobre depoimentos, câmeras corporais [usadas pelas policiais]”.

Ele destaca, no entanto, que não foi possível realizar a perícia no local do crime, o que dificulta o entendimento do que aconteceu nesses casos.

“Então este é mais um elemento que entra na análise, de tudo que aconteceu”, afirma. “[Mas] o Ministério Público espera e pretende dar essas respostas definitivas sobre o que de fato aconteceu naquele dia”.

Paralelamente às apurações sobre os homicídios, dezenas de policiais já foram denunciados à Justiça por crimes correlatos, como invasão de domicílio, furto de bens e adulteração intencional de equipamentos de gravação para impedir o registro das ações.

Apontamentos internacionais de direitos humanos Em março, um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos apontou falhas estruturais e táticas militares inadequadas durante a condução da operação, citando o uso desproporcional de força letal e relatos de execuções sumárias. A OEA também criticou o modelo atual de apuração da violência policial no Brasil.

“Ainda que se considere a hipótese de que civis estivossem armados e vinculados à organização criminosa, o padrão observado não se coaduna com cenário típico de confronto armado regular.”

Impacto social nulo na segurança Especialistas e pesquisadoras de segurança pública apontam que a intervenção militarizada não alterou o panorama de controle territorial na região, gerando apenas traumas profundos na população local.

“O que a gente percebe é o que percebemos em todas as operações violentas no Rio de Janeiro. O saldo é nulo ou negativo. A gente fala nulo porque nada mudou”, afirma Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado.

“A população continua submetida às mesmas rotinas violentas do Comando Vermelho após a operação. A liderança do Comando Vermelho é a mesma, as pessoas do Comando Vermelho que morreram foram substituídas por outras pessoas”.

A pesquisadora Carolina Grillo, vinculada à Universidade Federal Fluminense, reforça que a ação careceu de planejamento estratégico adequado para a preservação de vidas.

“Os moradores passaram por uma cena de filme de terror para nada. No segundo em que a polícia foi embora, o Comando Vermelho continuava controlando o território. Supostamente, essa operação era para prender o Doca [liderança criminosa local]. Segundo os moradores, todo mundo já sabia que ia ter operação e que o Doca já tinha saído na véspera”, afirma.

Carolina Grillo complementa que, além de colocar a população em risco e criar um caos na cidade, a operação foi incapaz de proteger os próprios policiais.

“A operação foi um verdadeiro desastre, que resultou em cinco policiais mortos, ou seja, sem um planejamento adequado, que pensasse em proteger seus próprios agentes”, ressalta.

“Foi uma operação que não teve nenhum compromisso com a vida. Cerca de 60 corpos foram largados na mata, porque era tanta gente que a polícia matou que eles não eram capazes de carregar os corpos das suas vítimas”.

Enquanto as instituições de segurança pública evitam comentar detalhes dos andamentos atuais, famílias e coletivos da sociedade civil continuam cobrando transparência e justiça pelas vítimas da intervenção.

Fonte: Agencia Brasil