Javier Milei aposta na Patagônia para transformar Argentina em polo global de IA
Em uma área isolada da estepe patagônica, localizada na província de Los Toldos, o zumbido de servidores de computadores substitui o som do vento aos pés de um vulcão. No local, um data center de 12 megawatts (MW), cercado por paisagens rochosas que lembram cenários cinematográficos, opera utilizando gás que normalmente seria queimado como subproduto da extração de petróleo de xisto na região.
“Há uma enorme oportunidade aqui para que os data centers não concorram com as necessidades humanas”, disse Tomás Ocampo, fundador da Unblock Energy, empresa que projeta uma instalação de centenas de MW voltada para sistemas de inteligência artificial no interior argentino.
O avanço dos planos de tecnologia e a busca por investidores
Ocampo relatou ter recebido diversos contatos de clientes e potenciais investidores dos Estados Unidos após eleições locais e votações que restringiram o setor tecnológico norte-americano, além de declarações do bilionário Elon Musk sobre a viabilidade de instalar estruturas fora da Terra. “Antes de colocarmos data centers no oceano e no espaço, a Argentina faz muito sentido”, afirmou o executivo.
O presidente Javier Milei adotou a tecnologia como eixo central para converter o país em um polo tecnológico global. A estratégia inclui um projeto legislativo com benefícios fiscais, a promessa de ausência de regulação específica para a área, a abertura para corporações não humanas e a aproximação com magnatas como Peter Thiel e Elon Musk. O governo aposta na baixa densidade demográfica e na abundância energética do oitavo maior território do planeta.
Desafios estruturais e resistência política
Apesar das promessas oficiais, o país possui menos de 40 MW de capacidade instalada em data centros, ficando atrás de nações vizinhas como o Chile, que soma 400 MW. Outras multinacionais preferiram estabelecer operações no Uruguai, no Brasil e no México. Além disso, a precariedade da infraestrutura elétrica e décadas de instabilidade econômica dificultam o avanço rápido.
O projeto de um data center de 500 MW voltado para atender a OpenAI, anunciado por Milei em outubro do ano passado, permanece sem avanços concretos. Questionada, a OpenAI declarou ao Financial Times que atuava apenas como “uma potencial compradora” e que “qualquer eventual aquisição dependeria” de a Sur Energy desenvolver a estrutura.
A oposição política também tem se mobilizado contra as medidas. Críticos realizaram audiências parlamentares para debater a atuação de Peter Thiel na Argentina, enquanto protestos populares obrigaram o governo a recuar de uma proposta para facilitar a compra de terras por estrangeiros.
Entidades civis argumentam que os empreendimentos podem intensificar a escassez hídrica na região patagônica e gerar poucos postos de trabalho. “Os benefícios são realmente excessivos”, afirmou o ativista ambiental Oscar Soria.
Potencial energético e perspectivas de crescimento
Apesar dos obstáculos, iniciativas no setor energético mantêm o projeto viável. A Pampa Energy informou dispor de 800 MW na província de Neuquén, enquanto a polonesa Green Capital planeja um aporte de US$ 3 bilhões em Chubut.
A aprovação do pacote de incentivos no Congresso deve destravar novos capitais. “A Argentina é um dos únicos países com poucas restrições para implementar data centers de grande capacidade em um curto período”, avaliou Raimundo Diaz, vice-presidente executivo da Vistra Global Solutions. “Está chegando tarde à festa, mas tem enorme potencial para recuperar o atraso.”
Na formação de Vaca Muerta, o volume de petróleo mais que dobrou desde 2024, mas a produção de gás permanece estagnada por falta de dutos. Estima-se que empresas desperdicem cerca de 600 MW em potencial de geração através da queima de gás, enquanto até 3 GW continuam no subsolo por falta de escoamento.
“Levamos o data center para onde há energia sobrando”, declarou Miranda Marrazzo, engenheira-chefe da Unblock. Já Germán Serrano, ex-executivo da YPF, avaliou que seria “mais eficiente” “construir os data centers em Vaca Muerta e transportar fótons pelo mundo do que transportar energia até os data centers”.
A limitação da rede de transmissão ainda exige que novos empreendimentos garantam infraestrutura própria para 80% de sua demanda elétrica. Críticos como Daniel Yankelevich, do centro de estudos Fundar, defendem que o país foque em atividades de maior valor agregado. “Os data centers devem ser um meio, não o objetivo final”, concluiu.
Fonte: Folha - Tecnologia